sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Desertor - Análise da Obra - UFMG/2011 - Parte I

E ai pessoal? Iniciamos nesta postagem o estudo da obra O Desertor de Manuel Inácio da Silva Alvarenga que será uma das obras utilizadas pelo Vestibular 2011 da UFMG. Bom estudo a todos!

O Desertor
Manuel Inácio da Silva Alvarenga

Análise da Obra
UFMG/2011

Prof. Adriano


De Aristóteles

A imitação da Natureza, em que consiste toda a força da Poesia, é o meio mais eficaz para mover, e deleitar os homens; porque estes têm um inato amor à imitação, harmonia, e ritmo. 
In. “Discurso sobre o poema herói-cômico

  • O poema herói-cômico é a composição em verso que simulando o modo épico ou seu estilo no tratamento de assunto trivial ou mesquinho.
  • O teor cômico referido no termo não é o resultado da ridicularização do estilo heróico ou sublime, mas no uso desadequado(inconveniente) de sua estrutura para assunto pouco elevado.





  • Com base nesses preceitos, O Desertor apresenta verdades gerais, ou seja, exalta as transformações estabelecidas pela Reforma Pombalina, ridicularizando fatos particulares ocorridos com Gonçalo e seus companheiros.


A epopeia segue uma estrutura rígida. A divisão da mesma é a seguinte:

  • 1ª parteProposição: em que se apresenta o assunto;
  • 2ª parteInvocação: em que o poeta solicita que os deuses ou as suas musas o inspirem e auxiliem na tarefa difícil que tem a realizar, ou seja, escrever o poema.
  • 3ª parteDedicatória ou oferecimento: em que ocorre o oferecimento da obra a uma figura ilustre.
  • 4ª parteNarração: que é a história propriamente dita.
  • 5ª parteEpílogo: em que se dá o desfecho da narrativa e em que o poeta expõe suas observações finais sobre os fatos narrados


Por que o título O Desertor

Entre os significado para o verbo desertar está  ”Desistir ou desviar-se de”. Esse é o significado que cabe na obra de Silva Alvarenga. Gonçalo desiste da universidade e desvia-se do caminho da sabedoria, da verdade e da paz.



O Herói

Figura muito importante na epopeia, no poema herói-cômico ele ganha ar cômico. Mas antes de analisar o herói em nossa obra, vamos analisá-lo como aparecem nos clássicos épicos.

O herói Clássico
  • Para os gregos o herói está entre os deuses e os homens, é uma personagem semidivina.
  • Homem notável por sua coragem, feitos incríveis, generosidade e altruísmo. 
  • O herói é descrito como alguém símbolo de honra, lealdade, bravura e comprometimento social.
  • O herói clássico serve de modelo para os homens. É exaltado por todos.


Nosso herói: Gonçalo
  • Gonçalo é um estudante que abandona os estudos na Universidade de Coimbra, O Desertor das letras.
  • Gonçalo é repreendido por seu tio e atacado por onde passa.
  • Gonçalo abandona sua noiva, abandona os estudos, segue a Ignorância, durante uma briga finge-se de morto para escapar.
  • Todos os problemas enfrentados por Gonçalo são resolvidos com alguns tapas e pedradas.
  • Gonçalo estaria muito mais para um anti-herói, como Dom Quixote, do que para um herói clássico, como Hércules.

O DESERTOR

Discit enim citius, meminitque libentius illud,
Quod quis deridet, quam quod probat, ac veneratur.
Horat. Epist. I. 1. 2. v. 262.


Tradução:


Na verdade aprende mais rapidamente e recorda de mais bom grado
aquilo que o faz rir que aquilo que aprecia e venera.


CANTO I

Musas, cantai o Desertor das letras,
Que, depois dos estragos da Ignorância,
Por longos, e duríssimos trabalhos
Conduziu sempre firme os companheiros
Desde o loiro Mondego aos Pátrios montes.
Em vão se opõem as luzes da Verdade
Ao fim, que já na idéia tem proposto:
E em vão do Tio as iras o ameaçam. 


  • O poeta evoca as musas para cantar as aventuras do Desertor das letras, inicia o prólogo, o herói, que parte da Universidade de Coimbra — cidade que margeia o rio Mondego — a qual já vivia os ares dos novos estatutos da reforma da universidade, em direção à Mioselha, onde mora seu tio. Ignorando o clima intelectual da ilustração, quer dizer, do iluminismo, Gonçalo conduziu seus companheiros, mas com a certeza da ira que enfrentará na casa de seu tio.
  • Ao contrário que se vê em uma epopeia, por exemplo em Os Lusíadas, de Camões, que exalta um herói coletivo, neste caso os portugueses, em O Desertor temos um herói no singular. Gonçalo, caricatura dos estudantes da época, funciona como uma imagem inversa de valores que contribui para elevar a exaltação da personalidade histórica que se quer dedicar o poema: o Marquês de Pombal. 
  • É o Marquês o reponsável pelas reformas que mudaram o ensino superior, tirando-o da velha estrutura dos jesuítas e da vergonhosa letargia — ou seja, da apatia profunda, da inércia, do desinteresse que se encontrava. A Evocação. O poeta evoca o Gênio da Lusitânia, uma espécie de protetor, para que o guie contra os perigos dessa missão que declara ser muito grande, como os vastos mares, para um poeta que se compara a um batel, ou seja pequena embarcação:


E tu, que à sombra duma mão benigna,
Gênio da Lusitânia, no teu seio
De novo alentas as amáveis Artes;
Se ao surgir do letargo vergonhoso
Não receias pisar da Glória a estrada,
Dirige o meu batel, que as velas solta,
O porto deixa, e rompe os vastos mares
De perigosas Sirtes povoados. 

  • Na terceira estrofe o poeta levanta questionamento sobre as causas que fizeram Gonçalo desistir de sua formação. Que mesmo com origem rústica, se curvou ao peso dos estudos se entregando à trama e conselho da Ignorância, marcada com maiúscula como forma de personificação muito usada pelos árcades. 

Quais seriam as causas, quais os meios
Por que Gonçalo renuncia os livros?
Os conselhos, e indústrias da Ignorância
O fizeram curvar ao peso enorme
De tão difícil, e arriscada empresa.
E tanto pode a rústica progênie! 


  • Podemos perceber nesta parte do poema uma relação muito direta com a epopéia Enéida, de Virgílio, que no seu Livro Primeiro traz os seguintes versos:

Musa, as causas me aponta, o ofenso nume,
Ou por que mágoa a soberana déia
Compeliu na piedade o herói famoso
A lances tais passar, volver tais casos?
Pois tantas iras em celestes peitos!

A vós, por quem a Pátria altiva enlaça
Entre as penas vermelhas, e amarelas
Honrosas palmas, e sagrados loiros,
Firme coluna, escudo impenetrável
Aos assaltos do Abuso, e da Ignorância,
A vós pertence o proteger meus versos.
Consenti que eles voem sem receio
Vaidosos de levar o vosso nome
Aos apartados climas, onde chegam
Os ecos imortais da Lusa glória. 


  • Na quarta estrofe, Alvarenga continua sua evocação pedindo ao Gênio e às Musas a proteção para os seus versos, que estes possam levar o nome de seus protetores aonde chegam as imortais notícias da glória do povo português 

Já o invicto Marquês com régia pompa
Da risonha Cidade avista os muros.
Já toca a larga ponte em áureo coche.
Ali junta a brilhante Infantaria;
Ao rouco som de música guerreira
Troveja por espaços: a justiça,
Fecunda mãe da Paz, e da Abundância,
Vem a seu lado: as Filhas da Memória
Digna imortal coroa lhe oferecem,
Prêmio de seus trabalhos: as Ciências
Tornam com ele aos ares do Mondego;
E a Verdade entre júbilos o aclama
Restaurador do seu Império antigo.
Brilhante luz, paterna liberdade,
Vós, que fostes num dia sepultadas
Co bravo Rei nos campos de Marrocos,
Quando traidoras, ímpias mãos o armaram
Vítima ilustre da ambição alheia,

Tornai, tornai a nós. Da régia stirpe
Renasce o vingador da antiga afronta.
Assim o novo Cipião crescia
Para terror da bárbara Cartago.
Possam meus olhos ver o Ismaelita
Nadar em sangue, e pálido de susto
fugir da morte, e mendigar cadeias;
E amontoando Luas sobre alfanges
Formar degraus ao Trono Lusitano.
Dissiparam-se as trevas horrorosas,
Que os belos horizontes assombravam,
E a suspirada luz nos aparece.
Tal depois que raivoso, e sibilante
Sobre o carro da Noite o Euro açoita
Os tardios cavalos do Bootes,
E insulta as terras, e revolve os mares,
Raia a manhã serena entre doiradas,
E brancas nuvens: ri-se o Céu, e a Terra:
Vento dorme, e as Horas vigilantes
Abrem ao claro Sol a azul campanha. 


Aqui inicia-se a Dedicatória. O Marquês de Pombal é o tema da quinta estrofe. Os versos narram sua entrada triunfal em Coimbra para a criação da Universidade em 22 de setembro de 1772. Para essa exaltação são usados os substantivos Justiça, Paz, Abundância, Memória, Verdade e ciências que lhe oferecem a coroa e retornam aos ares do rio Mondego aclamando o Restaurador do seu Império antigo. E traçando a genealogia do trono português evoca também D. Sebastião, que desapareceu na África em 1578 e com ele a liberdade portuguesa, para ressurgir com D. José, “régia stirpe”, príncipe herdeiro e vingador, sobre os inimigos de Portugal. 


  • A Ignorância aparece a partir da sexta estrofe abatida e sem abrigo diante de uma Coimbra feliz e não encontra nenhum abrigo e temerosa suspira o fim de sua glória e de seu reino. E não sendo mais temida busca um lugar desconhecido onde possa repousar e esperar o momento de se vingar. 
        
  • Mas percebe que os olhos do reitor da Universidade, “Prelado formidável”, está vigilante e atento a todos os recantos e empenha em não deixar entre os homens asilo para ela. 
  • Então a Ignorância busca se esconder, entre gemidos e soluços, e serenando sua aflição vai se abrigar no fiel Gonçalo, deixando para trás a Preguiça e a Ociosidade. 
  • Cabe aqui um comentário, como teremos uma jornada, Preguiça e Ociosidade não seriam boas companheiras. Tem início a segunda parte épica:  A narração.





Toma a forma dum célebre Antiquário 
Sebastianista acérrimo, incansável, 
Libertino com capa de devoto.
Tem macilento o rosto, os olhos vivos, 
Pesado o ventre, o passo vagaroso. 
Nunca trajou à moda: uma casaca 
Da cor da noite o veste, e traz pendentes 
Largos canhões do tempo dos Afonsos. 
Dizem que o tempo da mais bela idade 
Consagrou às questões do Peripato. 
Já viu passar dez lustros, e experiente 
Sabe enredos urdir, e pôr-se em salvo. 
Entra por toda a parte, e em toda a parte



  • Desejoso de ter uma boa instrução, Gonçalo lia muito, porém romances populares e de qualidade contestável. Carlos, Rosaura e Florinda são personagens de obras que buscam muito mais arrebatar o leitor pelo lado emotivo e nada racional. 
  • Assim o retrato intelectual de nosso herói é feito implacavelmente a partir de sua leitura de obras, das quais sabia repetir de cor algumas passagens, que representam “a mediocridade literária do século do conceptismo e do cultismo”.


Morreram as postilas, os cadernos:
Caiu de todo a ponte, e se acabaram
As distições, que tudo defendiam,
E o ergo, que fará saudade a muitos

  • Aqui, toda a comicidade decorre da palavra ponte, que no jargão acadêmico da época significava mais precisamente “ponte de asnos”, para se referir à lógica silogística, cada vez mais desacreditada para a nova ciência em função de sua simplicidade e redundância. Com efeito, só mesmo os asnos têm dificuldade para atravessar pontes. [1]
[1] POLITO, Ronald (2003), p. 43.

  • Continuando sua exposição, Tibúrcio saudosamente lembra de outras primaveras, “Que alegres dias não foram os de Maio”, lembrando que estamos falando de Portugal e, logo, as estações do ano se invertem em relação ao Brasil. A saudade é da estrada cheia de “Arrieiros, e Estudantes”, o que provoca comicidade novamente, pois arrieiro é condutor de asnos. O expositor continua exaltando aquele tempo em que a honra e a fortuna chegava a todos, ao contrário do momento em que estão que são raros os que conseguem atingir esta meta por causa da longa carreira. 

  • Exalta a vida farta e feliz que poderia ter em Mioselha, vilarejo do tio de Gonçalo, sem ter a obrigação de carregar sobre os ombros o peso dos estudos. E Tibúrcio (a Ignorância) afirma para o herói não temer o tio, pois não irá sozinho, pois terá sua companhia inseparável e de outros que serão convencidos de segui-lo. 

  • Gonçalo, ouvindo toda a exposição, sorri e vê em tal meditação tudo o que deseja e acredita: poupar-se da fadiga dos estudos. As estrofes 10, 11 e 12 descrevem a decisão de nosso herói e a convocação dos outros que o acompanharão em sua jornada. E agrupados, é perguntado se algum deles ainda tinha na alma o desejo dos estudos era para levantar a mão. Mas nenhuma alçou no ar. E a Ignorância consolou-se ao imaginar seu futuro e glorioso império.
  • Tibúrcio apronta tudo para a partida, mas a notícia se espalha e Guiomar, mãe da namorada de Gonçalo, Narcisa, se entristece e se assusta com a notícia. A velha se lamenta enquanto a filha tenta encontrar uma forma de deter a fuga do ingrato amante. A estrofe 13 apresenta as descrições femininas completamente inversas aos atributos usados para as mulheres da poesia lírica árcade que eram enaltecidas. Se pensarmos em Glaura, pastora adorada em livro homônimo do próprio Silva Alvarenga, a descrição de Narcisa está muito longe de ser parecida:


  • Narcisa — que comicamente nos remete a Narciso, personagem mitológico associado à beleza — então raivosa, finge se esquecer do véu para cobrir a cabeça, para mostrar ainda mais sua ira, repreende Gonçalo sobre sua sorte: ser infeliz, enganada e descontente. E recordando-o de suas promessas e juramentos, acusando-o de perjuro, afirma que tal enganação não ficará sem castigo; seja com as prisões do mundo, seja com os raios do Céu.
  • Nas estrofes 14, 15 e 16 é apresentada a ação de Tibúrcio que, vendo Gonçalo vacilar diante das queixas de Narcisa, se volta para a moça acusando-a de usar o estratagema feminino para enganar o amigo: “As lágrimas do rosto e o riso na alma”. O herói, ciente de seu dever tenta tranquilizar a amada, dizendo que a ausência será breve e na sua volta será o tempo dos doces laços do eterno amor. E como prova oferece a Narcisa sua bolsa, como forma de garantia de seu retorno. 

  • Porém tibúrcio tenta alertá-lo sobre as dificuldades que possam encontrar no caminho e que a bolsa faria muita falta. Assim, Gonçalo se vê em meio a uma “briga de cachorro grande”; de um lado o fiel amigo, do outro a adorada amante. A contenda entre os dois se generalizou e cadeira, paus e pedras voaram pelos ares. Nosso herói viu também ganhar os ares seus próprios dentes envoltos em sangue. Narcisa, contando a prata dentro da bolsa, volta para casa contente. 

  • Enfim a partida acontece. As estrofes 17 e 18 narram que Rodrigo alerta Gonçalo da ira de Guiomar, que o quer colocar na prisão. Assim nosso herói convoca os companheiros. Chorando, deixando sua breve e trágica história de amor escrita com seu próprio sangue, amaldiçoa a velha, monta em seu animal e parte.


Canto II


Este canto começa com a descrição dos membros da comitiva que parte do Mondego. Sua primeira e longa estrofe se volta para a caracterização de cada um:

Gonçalo: o maior na estatura, na força, no valor e na destreza;
Tibúrcio: já descrito anteriormente, chama atenção por parecer carregar um estandarte feito de um lenço pardo e um ramo de salgueiro;
Cosme: o apaixonado não correspondido, pois nem sabe a quem ama;
Rodrigo: melancôlico, grosseiro e bruto. Desconfia de todos. Sempre na defensiva;
Bertoldo: que se diz nobre e carrega consigo papéis para provar. Busca o reconhecimento por ações que não eram dele. E diz que a riqueza não muda o sangue e por isso a todos despreza;
Gaspar: irado e mau perdedor. Sempre pronto a puxar a enferrugenta espada. 
Alberto: Alegre e desejado nas festas. Tem a fama de engraçado e contador de vantagens.



        
  • Na segunda estrofe aparece a referência à personagem mítica de Anfitrite, que se escondeu nas profundezas dos oceanos para não se unir ao deus Poseidon. Ponto interessante, pois temos um grupo que foge da formação acadêmica, ou seja, de seguir uma louvável trajetória. Assim com a chuva que ameaça o grupo, a velha estalagem o recebe.
  • Após a descrever o local, ganha espaço na narrativa, estrofes 3,4 e 5, a glutônica disputa entre Rodrigo e Tibúrcio. Sem modos, eles vão devorando e bebendo como animais grosseiros. Então, certo que venceria, Rodrigo levanta um grande copo e brinda a saúde de todos os famosos Desertores. Tibúrcio, com nobre ardor, também chama um brinde:


       Vasilha da minha alma, tu que guardas 
       A alegria dos homens no teu seio, 
       E tu, filho da cepa generoso, 
       Se estimas, e recebes os meus votos, 
      Derrama sobre mim os teus encantos.

  • Mas a recepção do grupo, de seus atos e de suas palavras não foi boa, como podemos ver a partir da estrofe 5. Aqueles que estavam na estalagem foram tomados por um furor no peito, os corações perturbados pelo ódio. 

    
  • O narrador volta-se para Gonçalo que se esconde debaixo da mesa, pois não queria manchar a mão com sangue amigo, e diz que apenas ele poderia descrever o terrível estrago daquela noite. Gaspar, já enfurecido, ouve o estalajandeiro Ambrósio discursar sobre as atitudes dos estudantes. 
  • Questiona se é possível encontrar entre estudantes um gênio dócil, sério e moderado. E expõe sua experiência, pois também foi estudante e também na juventude cometeu muitos crimes dignos de fama e castigos. Fora um desertor como eles. Mas mostra que isso só o deixou na miséria arrastando uma infeliz velhice sem honra, sem proveito, sem abrigo. E termina aconselhando ao grupo tê-lo como um triste exemplo do que podem fazer do futuro, e para que isso não acontecer deveriam ser bons para gozar do prêmio dos estudos.


As estrofes 7, 8 e 9 relatam a reação de Gaspar às palavras do estalajandeiro e a confusão criada, que faz com que os Desertores fujam favorecidos pela névoa da noite:



Da noite a densa névoa favorece. 
Receosos de nova tempestade, 
Salvam as vidas os Heróis fugindo 
Por entre o mato espesso. Ouvem ao longe 
Da vingativa plebe a voz irada. 
À clara luz das pinhas resinosas 
Aparecem as foices, e aparecem 
Chuços, cacheiras, trancas, e machados. 
Levanta-se o clamor; e a crua guerra, 
Que o sangue dos mortais derrama, e bebe, 
Gira por toda a parte, e move as armas.


  • O grupo foge amparado pela sombra da noite, percorrem longo espaço, pálidos de terror, como piratas mouros que fogem em seus pequenos barcos das possantes naus. Gaspar que teve a folha de sua espada partida, lamenta não ter se vingado. 
  • Bertoldo teme encontrar o povo em meio àquela escuridão e aproxima dos outros em pânico. Cosme chora saudades sem motivos e apenas Gonçalo tenta pensar como salvar os amigos. Sem a companhia de Tibúrcio, seu fiel e caro amigo, teme o encontro com o Tio rústico e inflexível. Pensa em voltar, mas teme encontrar com o povo indignado e ofendido. Passou a noite entres os pensamentos e a vigilância até que o dia raiou no horizonte.

CANTO III
  • O terceiro canto começa com as duas primeiras estrofes e parte da terceira retomando a louvação à ação de edificação da universidade de Coimbra, cidade margem do rio Mondego, que seria a base da ciência imortal para o trono real. Toda a ação é atribuída ao “Grande rei”. Relatam também que a fama e o sucesso da ação passa de país em país e assim chegam até aos rústicos, gente simples que ainda é cega, indócil e receosa.
  • Na quarta estrofe aludida acima, ao falar dos rústicos, o narrador, retoma a história de Gonçalo: 
Por onde irás, intrépido Gonçalo, 
Que escapes ao furor da plebe armada? 
Mas já os desgraçados companheiros 
Desciam por incógnitas veredas 
Para o fundo dum vale cavernoso, 
Que o Zêzere veloz lavando insulta 
Coas turvas águas do gelado inverno.

  • A comparação com Zêzere, um pequeno rio que desaparece no Tejo, e que tem seu curso por penhascos inacessíveis, faz sentido na fuga do grupo. Escondido estão como as musgosas pedras, ou como a neve das grutas, ou como as tortas raízes. Os gemidos das corujas aumentam o som do rio íngreme e se confunde com os próprios gemidos de Rufino.

  • Rufino, que é descrito como quem sempre lamenta-se do Amor e da Fortuna, buscava as cavernas para o seu pranto. Cansado de chorar, havia adormecido. Então a Ignorância, que no grupo deposita a esperança de seu novo império, vendo-os naquelas montanhas escabrosas, vê apenas como saída que o extremoso e queixoso Rufino guie-os até Mioselha. Mais uma vez se personificando, a Ignorância finge o rosto de Dorotéia, filha caçula de Amaro. Assim ela lhe aparece em sonho. Bela e se declarando ingrata aos amores do sonhador, se declara amante do moço, porém afirma que a riquesa de afetos e palavras não afasta a companhia da sórdida miséria.
  • Então a Ignorância, que no grupo deposita a esperança de seu novo império, vendo-os naquelas montanhas escabrosas, vê apenas como saída que o extremoso e queixoso Rufino guie-os até Mioselha. Mais uma vez se personificando, a Ignorância finge o rosto de Dorotéia, filha caçula de Amaro. Assim ela lhe aparece em sonho. Bela e se declarando ingrata aos amores do sonhador, se declara amante do moço, porém afirma que a riqueza de afetos e palavras não afasta a companhia da sórdida miséria.
  • Pede que o amante busque novas terras e assim nova sorte e fortuna. E termina com exemplo do velho Afonso que deixou Portugal e partiu para o Brasil voltando, mais tarde rico: 
Vês tu quanto cresceu, que não cabendo 
No paterno casal, ergue as paredes 
Até chegar ao Céu, que testemunha 
A ditosa união com que ele paga 
O firme amor da venturosa Ulina? 
Vai pois, Rufino meu, que muitas vezes 
Muda-se a terra, e muda-se a Fortuna.



    
  • Assim desperta Rufino, e não duvida que o presságio era verdadeiro e que tesouros o esperam em outro lugar.  Delirando com seu novo desejo, uniu-se ao esquadrão de Gonçalo, guiado pela mesma Ignorância. Nosso herói o saúda e pede que o ajude e a seus companheiros a deixar tão difícil caminho. Relata ainda, Gonçalo, os sofrimentos passados. E tem em Rufino o amparo:



Vós em mim achareis amigo, e guia: 
Que pode dar alguma vez socorro 
Um desgraçado a outro desgraçado. 
Duros casos de amor me conduziram 
A acabar nesta gruta os tristes dias; 
Mas hoje volto por feliz presságio 
A tentar noutra parte a desventura.




  • Assim, Rufino termina de falar e o grupo parte. Depois de muito caminharem, não encontra Gonçalo a tranquilidade que buscava, mas sim novamente o povo colérico que os cerca. O narrador, evocando as musas, distingue a imagem da batalha que descreve das que rege Marte, deus da guerra. Se em Tróia era um desfile de escudos, penachos e espadas, ali se via o povo com o peito descoberto, armado de armas rúticas, paus e foices. 
  • Disposto a enfrentar a batalha, Gonçalo organiza o grupo para o enfrentamento. Aproveitando das armas do espaço, pedras e paus, o grupo começa a ganhar espaço com a ajuda das pedradas de Gaspar.
  • Quando Gonçalo começa sentir a vitória, aparece o Gigante Ferrabrás. Como Hércules ao enfrentar a Hidra, nosso herói evita a morte, mas em um movimento tropeça e cai. Seria morto se Gaspar não o salvasse, quebrando o braço direito do gigante. Com a queda de Ferrabrás, o povo volta a cercar o grupo e Gonçalo finge-se de morto, enquanto Gaspar enfrenta a plebe, já sem forças e rodeado, vê a desonra de seus amigos.
  • Com a queda de Ferrabrás, o povo volta a cercar o grupo e Gonçalo finge-se de morto, enquanto Gaspar enfrenta a plebe, já sem forças e rodeado, vê a desonra de seus amigos. 
  • O grupo é capturado. Debaixo de uma surra de ramos de azambujeiro e dos insultos da multidão, Gonçalo — cabisbaixo — chora, Bertoldo lamenta a falta de respeito com um nobre. E assim, como rebelados que perderam a batalha, marcham vagarosos para a prisão.


Estudaremos os cantos IV e V na próxima postagem que será feita em breve. Bom estudo à todos!



4 comentários:

  1. Obrigada pela análise! Bastante esclarecedora!

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  2. Jesus que abençoa, tava ficano doido já com esse livro, muito confuso! Ajudou e muito!
    Obrigado.

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  3. Galera, obrigado pelo comentário. Fico feliz em poder ajudar. Boa Prova!!

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  4. vlw aí, me ajudou pra caramba, deus que te dê muitas glôrias!!!

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