quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Homem e sua hora - Análise da Obra - UFMG/2011

Olá amigos vestibulandos e não-vestibulandos! Estou agora postando a minha análise da obra "O Homem e sua hora" de Mario Faustino, que é a última obra das que serão usadas pela UFMG este ano. Para conferir as outras, clique aqui. Espero que gostem e tenham um ótimo estudo e já agradecendo a todos aqueles que têm visitado o blog e comentando as postagens, é um grande prazer para mim ver este retorno e cada vez mais inspirador para continuar com o nosso trabalho. Muito obrigado mesmo e tenham uma excelente prova na semana que vêm! Vocês conseguem, tenham certeza disso.




Gênero Lírico

  • Presença de um eu lírico
  • Subjetividade
  • Sentimentalismo
  • Musicalidade
  • Atemporalidade
  • Visão particular de mundo


A palavra lírico vem do latim, que significa lira; instrumento musical usado para acompanhar as canções dos poetas da Grécia antiga, e retomado na Idade Média pelos trovadores.
Pode-se dizer que o gênero lírico é a expressão do sentimento pessoal. "É a maneira como a alma, com seus juízos subjetivos, alegrias e admirações, dores e sensações, toma consciência de si mesma no âmago deste conteúdo" (Hegel).


Elementos

  • Verso
  • Estrofe
  • Rima
  • Ritmo
  • Métrica
  • Forma
  • Imagem
  • Poema
  • Poesia

Desenvolver o estudo de textos deste gênero parte do conhecimento prévio dos elementos que constitui sua estrutura e o seu sentido.
Já existe no blog um post sobre o estudo do gênero lírico. Clique aqui para conferi-lo.


O Homem e sua poesia
  • A obra de Mário Faustino é altamente densa e comprova a habilidade versicatória do poeta.
  • Sua poesia é uma tentativa de uma nova construção poética.
  • O homem e sua hora apresenta uma poesia hermática, ou seja, de difícil acesso, longe da pretensão, de parte da poesia moderna, de representar a fala é o registro prosaico do dia-a-dia.
  • Seus versos são altamente subjetivos e com grande uso de metáforas absurdas, muitas vezes criando imagens paradoxais.
  • Faustino dialoga com a geração de 45, entrelaçando o exercício crítico e a prática poética. 
  • Seus poemas são marcados pelo uso da metalinguagem 
  • A tripartição da poesia, segundo Ezra Pound:
    • Melopaica – privilegiando a melodia
    • Fanopaica – efatizando as imagens das metáforas
    • Logopaica – destacando a linguagem e a razão
  • Em Faustino a logopeia é colocada em segundo plano.
  • Na obra, Faustino mostra-se especialista nas formas tradicionais, na invenção de novas linguagens e na busca de novos padrões estéticos.
  • O poeta trabalha com o poema longo e com o diálogo com as tradições literárias.
  • A intertextualidade surge na maioria dos poemas da obra.
  • Pode-se afirmar que Faustino se encontra em dois lugares as suas linhas poéticas:
    • No retorno a uma concepção solene do verso, privilegiando o verso decassílabo;
    • Na revalorização das mitologias, tanto gregas quanto bíblicas, apontando para revitalização das tradições fundadoras da lírica e da cultura.
  • A imagem e a música são os elementos vitais de sua poesia (melodia e ritmo)
  • A interpretação está mais do lado das aliterações e assonâncias do que da razão interpretativa.


Tirado da revista pág. 125

Para o autor, a poesia é a arte de exprimir percepções através de palavras, organizando-as em padrões lógicos, musicais e visuais. O poeta não é aquele que explica o objeto, e, sim, o que o recria num plano verbal. Essa seria a distinção básica entre o prosaico e o poético, pois o primeiro volta-se para a comunicação, enquanto o segundo, para a recriação de um conjunto de coisas, seres, idéias, sob a forma de palavras, para formar um objeto novo: o poema. Faustino vê a arte poética como a recriação do mundo por meio de palavras que componham uma coisa só com o objeto nomeado por elas – a linguagem deve se confundir com esse mesmo objeto.
       
  • Para a palavra poética transformar o mundo, cabe ao artista dar vida a ela, assim como Orfeu deu vida à natureza que o cercava. O poeta, então, em O homem e sua hora, seguindo os ensinamentos do cantor mitológico, torna a linguagem poética viva, orgânica, fecunda. Essa linguagem, por sua vez, mediando a luta entre o poeta e sua hora, presentifica o canto de Orfeu e busca sensibilizar e harmonizar feras, homens, pedras, instaurando, assim, por meio do verbo poético, a paz e o amor universal.
  • Clique aqui para conferir o mito de Orfeu e Eurídice.

  • Os versos dialogam com o surrealismo, assumindo uma dicção apocalíptica.
  • O significado que as imagens possuem não é possível afirmar sem parecer suspeito.
  • As aliterações destacadas nos versos mostram a sugestiva musicalidade, lembrando a estética simbolista.
  • Este exemplo mostra como as poesias são construídas a partir de uma técnica que domina a unidade rítmica e métrica dos versos e também a unidade melódica e imagética.

Organização da obra
  • A obra é dividida em três partes: 
    • “Disjecta Membra”(termo dodo latim que significa membros dispersos) ,
    • “Sete Sonetos de Amor e Morte” 
    • “O Homem e Sua Hora”.
  • A primeira parte apresenta  os poemas: 
    • “Mensagem”
    • “Brasão”
    • “Noturno”
    • “Vigília”
    • ”Legenda”
    • “Romance”
    • “Vida toda linguagem”
    • “Estrela roxa”
    • “Alma que foste minha”
    • “Solilóquio”
    • “Mito”
    • “Sinto que o mês presente me assassina”
    • “Heceldama”. 
      • A maioria dos poemas apresentam versos decassílabos, porém com variação rítmica, onde o poeta utila das formas livres na composição poética.
      • O poema “Romance” é a exceção. Escrito em redondilha maior (sete sílabas), métrica considerada mais popular .
  • Os poemas que integram a segunda parte são: 
    • “O mundo que venci deu-me um amor” 
    • “Nam Sibyllam” 
    • “Inferno” 
    • “eterno inverno” 
    • “quero dar” 
    • “Agonistes” 
    • “Onde paira a canção recomeçada” 
    • “Ego de Mona Kateudo”
    • “Estava lá Aquiles, que me abraçava”. 
  • Como o próprio título da parte já antecipa tratá-se de sete sonetos que são estruturados à maneira inglesa (quatorze versos sem a divisão estrófica). 
  • Destes sete sonetos, quatro apresentam característica da tradição renascentista ao ter como título o primeiro verso do poema
  • A última parte contém o poema que dá título ao livro. 
  • Importante lembrar que quando mencionar o nome da obra este deve ser sublinhado O homem e sua hora e quando for o nome do poema este deve estar entre aspas “O homem e sua hora”.
  • Neste poema Faustino materializa a sua busca poética apresentada nas duas primeiras partes de seu livro. 
  • “O homem e sua hora” possui 235 versos (na maioria decassílabos), com forte carga de intertextualidade, visitando a poética passada e presente para concretizar sua "renovação da poesia"


Mensagem
1.    Em marcha, heróico, alado pé de verso,
2.    busca-me o gral onde sangrei meus deuses;
3.    conta às suas relíquias, ontem de ouro,
4.    hoje de obscura cinza, pó de tempo,
5.    que ele os venera ainda, o jogral verde
6.    que outrora celebrou seus milagres mais fecundos.

7.    Dize a eles que vinham
8.    tecer silentes minha eternidade
9.    que a lava antiga é pura cal agora
10.  e queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos
11.  de seus mantos desertos de oferendas
12.  onde possa chorar meu disfarce ferido.

13.  Dize a eles que tombam
14.  como chuvas de sêmen sobre campos de sal
15.  sem mancha, mas terríveis
16.  que desçam sobre a urna deste olvido
18.  e engendrem rosas rubras
19.  do estrume em que  tornei seus dons de trigo e vinho.
20.  Segue, elegia, busca-me nos portos
21.  e nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures
                            passado                       algum lugar
22.  os deuses que afoguei no mar absurdo
23.  de um casto sacrifício.
24.  Apanha estas palavras do chão túmido inchado/intumescido
25.  onde as deixo cair, findo o dilúvio:
26.  forma delas um palco, um absoluto Noé
27.  onde possa dançar de novo, nu
28.  contra o peso do mundo e a pureza dos anjos,
29.  até que a lucidez venha construir
30.  um tempo justo, exato, onde cantemos
Brasão

1.    Nasce do solo sono uma armadilha
2.    Das feras do irreal para as do ser
3.    - Unicórnios investem contra o Rei.

4.    Nasce do solo sono um sobressalto.
5.    Nasce  o guerreiro. A torre. Os amarelos
6.    Corcéis da fuga de ouro que implorei.

7.    E nasce nu do sono um desafio.
8.    Nasce um verso rampante, um brado, um solo
9.    De lira santa e brava  - minha lei

10.  Até que nasça a luz e tombe o sonho,
11.  O monstro de aventura que amei.

Brasão

(bra.são)  Dicionário Caldas Aulete

sm.
  1  Her.  Conjunto de figuras e ornatos que compõem distintivo, insígnia, escudo de uma nação, família, soberano etc 
  2  Her.  Peça confeccionada com esses elementos; INSÍGNIA; DISTINTIVO. 
  3  Her.  Arte que trata da composição e interpretação das armas e distintivos da nobreza; HERÁLDICA. 
  4  Fig.  Lema, princípio 
  5  Fig.  Honra, glória 

Brasão

1.    Nasce do solo sono uma armadilha    ambiguidade solo (?)
2.    Das feras do irreal para as do ser   Chão, sozinho ou
3.    - Unicórnios investem contra o Rei.   Composição musical(?)

4.    Nasce do solo sono um sobressalto.   Referência à montaria
5.    Nasce  o guerreiro. A torre. Os amarelos   da morte no poema
6.    Corcéis da fuga de ouro que implorei.        "Romance"
       
7.    E nasce nu do sono um desafio.
8.    Nasce um verso rampante, um brado, um solo   A origem da nova
9.    De lira santa e brava  - minha lei poesia

10.    Até que nasça a luz e tombe o sonho, O fim do sonho
11.    O monstro de aventura que amei.


Segunda parte
Sete sonetos de amor e morte


O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR
  1. O mundo que venci deu-me um amor,
  2. Um troféu perigoso, este cavalo
  3. Carregado de infantes couraçados.
  4. O mundo que venci deu-me um amor
  5. Alado galopando em céus irados,
  6. Por cima de qualquer muro de credo,
  7. Por cima de qualquer fosso de sexo.
  8. O mundo que venci deu-me um amor
  9. Amor feito de insulto e pranto e riso,
  10. Amor que força as portas dos infernos,
  11. Amor que galga o cume ao paraíso.
  12. Amor que dorme e treme. Que desperta
  13. E torna contra mim, e me devora
  14. E me rumina em cantos de vitória.

INFERNO, ETERNO INVERNO, QUERO DAR
Paranomásia no título
  1. Inferno, eterno inverno, quero dar     O poema apresenta
  2. Teu nome à dor sem nome deste dia   várias referências à morte
  3. Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,            
  4. Escuma de alma à beira da agonia.       Inverno, escuma de alma
  5. Inferno, eterno inverno, quero olhar
  6. De frente a gorja em fogo da elegia,
  7. Outono e purgatório, clima e lar             Outono e purgatório referente à vida
  8. De silente quimera, quieta e fria.            Quimera = Monstro ou utopia
  9. Inverno, teu inferno a mim não traz
  10. Mais do que a dura imagem do juízo     Carátula = Máscara
  11. Final com que me aturde essa falaz
  12. Beleza de teus verbos de granizo;
  13. Carátula celeste, onde o fugaz       Fugaz estio = rápido verão, brilho efêmero 
  14. Estio de teu riso - paraíso?          Perdição - Salvação - Vida - Amor - Morte

Ego de mona kateudo
  • O título, que Faustino escreve em grego no manuscrito, é uma citação de um verso de Safo de Lesbos, uma de suas referências constantes: “ Déduke mèn a selánna/ kái Pléiades; mésai dè/ núktes, parà d’ erchet’ óra,/ égo dè móna katéudo” 
  • “ A lua já se pôs, as Plêiades também;/ É meia-noite;/ A hora passa, e estou deitada, sozinha ”). 



5 comentários:

  1. as análises foram muito boas e úteis!

    obrigada =)

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  2. Geeeente ,o MÁRIO FAUSTINO era a "esfinge gótica" da vez e só vc ADRIANO para decifrar este enigma. Vc é ótimo .Obrigada!
    ELIANE SRP - sala 04 - noite

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  3. Galera, obrigado pelo comentário. Fico feliz em poder ajudar. Boa Prova!!

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