terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Auto da Boca do Inferno


Humanismo

Escrita na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, “Auto da Barca do Inferno” oscila entre os seus valores morais de duas épocas ao mesmo tempo que há um severa crítica à sociedade, típica da Idade Moderna, a obra também está religiosamente voltada para a figura de Deus, o que é uma característica medieval.


O Humanismo caracterizou-se como um período de conflitos e mudanças de valores. Aos poucos, o ser humano foi deixando de lado a visão teocêntrica da existência humana, passando a interferir mais objetivamente no mundo em que vivia. Começou a valorizar sua própria capacidade intelectual e artística, tornando-se autor de descobertas científicas e de obras de arte admiráveis.


O Auto

“Auto" é uma designação genérica para peça, pequena representação teatral. Originário na Idade Média, tinha de início caráter religioso; depois tornou-se popular, para distração do povo.

Tudo indica que foi Gil Vicente (1465(?) – 1536(?) o introdutor da arte teatral do auto em Portugal. Seus autos versam sobre temas tradicionais de caráter religioso-moralizante ou pastoris.
A proteção real foi uma constante na sua vida. Manteve-se preso às tradições medievais e fez, antes de tudo, um teatro de tom didático-moralizante, enraizado no teocentrismo e na ideia de salvação da alma.

Apesar de suas personagens serem planas, sem profundidade psicológica, elas tocam a universalidade de aspectos psicológicos significativos que havia naquele tempo, bem como os valores prezados ou repelidos por aquela sociedade.


Os membros da Igreja são alvo constante da crítica vicentina. É importante observar, no entanto, que o espírito religioso presente na formação do autor, jamais critica as instituições, os dogmas ou hierarquias da religião, e sim os indivíduos que as corrompem.

Acreditando na função moralizadora do teatro, colocou em cenas fatos e situações que revelam a degradação dos costumes, a imoralidade dos frades, a corrupção no seio da família, a imperícia dos médicos, as práticas de feitiçaria, o abandono do campo para se entregar às aventuras do mar.

O “Auto da Barca do Inferno”, ao que tudo indica, foi apresentado pela primeira vez em 1517 na câmara da rainha D. Maria de Castela, que estava enferma. Esse Auto, classificado pelo próprio autor como um “auto de moralidade”.

Características da Obra

Espaço:  Tem como cenário um porto imaginário, onde estão ancoradas duas barcas: uma como destino o paraíso, tem como comandante um anjo; a outra, com destino ao inferno, tem como comandante o diabo, que traz consigo um companheiro.

Tempo: Com relação a tempo, pode-se dizer que é psicológico, uma vez que todos os personagens estão mortos, perdendo-se assim a noção do tempo.

Linguagem: Redondilhas maiores  (sete sílabas poéticas), linguagem coloquial para caracterizar a posição social dos personagens.

Estrutura: A peça é composta de apenas um ato dividido pelas falas do anjo e do diabo.


Personagens - Tipos e simbólicos


Os personagens “tipo” são os que apresentam características gerais de uma determinada classe social.
Esses tipos utilizados por Gil Vicente raramente aparecem identificados pelo nome. Quase sempre, são designados pela ocupação que exercem ou por algum outro traço social (sapateiro, onzeneiro, ama, clérigo, frade, bispo, alcoviteira etc.).

Também podem ser caracterizados como personagens simbólicos por representarem tipos particulares de comportamento humano.

É uma obra alegórica, tanto com relação aos personagens quanto às idéias que, no geral, perpassam uma dedução moral.

Estrutura externa – esta peça tem apenas um acto, uma vez que não há qualquer mudança de cenário. E, apesar de Gil Vicente não usar a divisão em cenas, nós podemos fazer corresponder a cada entrada das personagens uma cena. Assim, o texto consta de onze cenas.


Estrutura interna – Sendo o texto composto de pequenas acções, tendo cada uma delas uma forma muito semelhante ( breve apresentação de cada personagem, argumentação com o Diabo e Anjo e embarque numa das barcas) e não havendo qualquer ligação entre as várias sequências, não podemos afirmar que haja um enredo.


O percurso que cada personagem faz é muito semelhante: chegam ao cais, dialogam com o Diabo, vão à barca da Glória, falam com o Anjo e retornam à barca do Inferno, aonde quase todas embarcam.
A presença do Parvo no cais e a sua intervenção impede que a peça se torne monótona.

Breve resumo de cada cena:








Os objetos
Além da caracterização que vai sendo feita pelas próprias personagens, quando dialogam e pelo que o Diabo e Anjo declaram sobre cada uma, Gil Vicente usa ainda objetos próprios das suas classes sociais ou profissões.


  • O Fidalgo traz consigo o manto, o pagem e a cadeira; 
  • O Onzeneiro traz o bolsão; 
  • O Judeu traz o bode; 
  • O Frade traz a moça; 
  • A Alcoviteira traz as moças; 
  • O Sapateiro traz as formas. 

Todos esses objetos permitem que o público identifique com mais facilidade o tipo social a que pertencem e que se pretende destacar.


Alguns desses símbolos são mesmo pessoas que faziam parte da vida de cada uma das personagens e que permitem tornar mais evidente os seus defeitos e pecados.
Curiosamente, todas elas saem de cena, quando as personagens embarcam, exceto a moça Florença que entra na barca do Inferno com o Frade.

Linguagem

Outro processo de identificação das personagens é o tipo de linguagem que cada uma usa.
Quando as personagens dialogam com o Diabo e o Anjo utilizam um registro de língua próprio da classe social em que se inserem ou do grupo que representam, por exemplo, o caso do Parvo e dos homens (Corregedor e Procurador) ligados à justiça.

Tipos de cômico:

Gil Vicente usa vários tipos de cômico:

  • Cômico de linguagem. Exemplo: o caso dos insultos trocados entre o Parvo e o Diabo;
  • Cômico de situação. Exemplo: o fato do Judeu ter de ir a reboque;
  • Cômico de carácter. Exemplo: qualquer uma das personagens, mas destaque-se o Parvo e a forma como o Fidalgo se apresenta todo presunçoso…

Este texto de Gil Vicente, mais do que um pretexto para rir, é sem dúvida um documento histórico que nos permite conhecer os hábitos, defeitos e virtudes da nossa sociedade na época dos descobrimentos.

Claro que o seu carácter satírico e humorístico se conjugam e nos fazem rir ainda hoje, uma vez que os tipos sociais evidenciados são ainda actuais, porque humanos. Esse outro aspecto da intemporalidade de Gil Vicente. E é óbvio que o estudo da obra nos permite ainda viajar no tempo com as palavras




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