terça-feira, 29 de maio de 2018

Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto






O AUTO DE NATAL PERNAMBUCANO E O AUTO MEDIEVAL

O auto é uma espécie literária do gênero dramático, contendo apenas um ato, desenvolvida ao longo da Idade Média, que atingiu sua forma típica e teve seu auge na Península lbérica entre os séculos XV e XVI. Teve como origem as representações religiosas do teatro medieval ("mistérios", "dramas litúrgicos", "moralidades"). Os assuntos podiam ser religiosos ou profanos, sérios ou cômicos.

Sua função era, além de divertir o público, moralizar pela sátira de costumes e inculcar de modo vivo e acessível as verdades da fé.

O auto geralmente é versificado e não tem longa duração; o auto de Natal, especificamente, reveste-se de ingenuidade e pureza na celebração do nascimento de Jesus Cristo.

Os autos de natal nordestinos comemoram, naturalmente, o nascimento de Jesus. São conhecidos como Presépios, ou Autos Pastoris, ou Pastorinhas, porque as pastoras é que cantam louvores ao recém-nascido, depois de terem percorrido longos e difíceis caminhos, que incluem o próprio diabo, para chegarem a Belém, onde conhecem a santa criança.

O Bem e o Mal, o Pecado e a Graça nos Mistérios, como figurações típicas, são substituídos no Auto de Natal Pernambucano, pela Vida e pela Morte, que dialogam no plano alegórico do drama pastoril, mas provido este, como se verá depois, de um novo conteúdo, que inverte o estrito sentido religioso e sobrenatural de sua mensagem natalina.


E a alegoria natalina do pastoril, forma dramática folclórica arraigada ao estrato rural de nossa sociedade, e particularmente ativo no Nordeste, que se decompõe no Auto de Natal Pernambucano.

Os Autos, ou mais propriamente as moralidades, descrevem normalmente a trajetória de um peregrino na vida terrestre; em "Morte e vida severina", o peregrino é o Severino retirante, que acompanha a trajetória do rio Capibaribe, fugindo da miséria, do envelhecimento precoce e da morte, para chegar ao Recife e encontrar uma vida melhor.

De temática regional, a peça contém elementos físicos e sociais do Nordeste pobre, e encena o drama da fome e da miséria do retirante depauperado, vítima do sistema.



PARTE 1: O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI 

O monólogo em que o retirante se apresenta, assim como os demais monólogos da peça, foi construído à maneira das formas poéticas narrativas portugueses medievais. Os versos deste monólogo são em medida velha, ou seja, em redondilhas maiores ou heptassílabos (sete sílabas poéticas) e com rimas alternadas (embora o poeta não era fã de rimas).

Severino tenta se apresentar nos primeiros trinta versos dessa primeira parte, mas defronta-se com sua própria falta de identidade: inúmeros são os severinos. O sertanejo é desindividualizado, despersonalizado, identificando-se com a própria pobreza do ambiente: a serra em que vive é magra e ossuda como eles mesmos, os sertanejos esfomeados. Ele é, assim, um sujeito coletivo e passivo.

Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias, 
lá da serra da Costela, 
limites da Paraíba. 
Mas isso ainda diz pouco: 
se ao menos mais cinco havia 
com nome de Severino 
filhos de tantas Marias 
mulheres de outros tantos, 
já finados, Zacarias, 
vivendo na mesma serra 
magra e ossuda em que eu vivia. 

Após sua tentativa de apresentação, severino acaba-se identificando com os demais severinos, iguais em tudo na vida, e também na morte. Num processo metonímico (sinédoque) , o indivíduo Severino passa a representar todo o povo severino do Nordeste pobre (a parte representa o todo). É traçado, então, o perfil do pobre sertanejo genérico, com a transformação do substantivo próprio Severino em adjetivo qualificativo do povo pobre do Nordeste. 

E se somos Severinos 
iguais em tudo na vida, 
morremos de morte igual, 
mesma morte Severina: 
que é a morte de que se morre 
de velhice antes dos trinta, 
de emboscada antes dos vinte 
fome um pouco por dia 
(de fraqueza e de doença 
é que a morte Severina 
ataca em qualquer idade, 
e até gente não nascida)

Ao final da primeira parta, o retirante convida o leitor/espectador a conhecê-lo melhor, acompanhando-o em sua migração:

Mas, para que me conheçam 
melhor Vossas Senhorias 
e melhor possam seguir 
a história de minha vida, 
passo a ser o Severino 
que em vossa presença emigra. 


PARTE 2: ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!"



O diálogo desta parte é feito em versos de sete e de quatro sílabas alternados. Os irmãos de almas (expressão que aproxima os mortos e os vivos) carregam o defunto de um lavrador, também Severino, morto a bala em uma disputa de terra, na qual, aparentemente, algum grande proprietário levou a melhor. A ave-bala, a tal pássara, que matou o Severino metaforiza a ganância dos poderosos, que fazem valer pela força sua necessidade de ocupação de espaços, espalhar-se, voar mais livre:

— Mas então por que o mataram, 
     irmãos das almas, 
     mas então por que o mataram 
     com espingarda? 

— Queria mais espalhar-se, 
     irmão das almas, 
     queria voar mais livre 
     essa ave-bala. 

— E agora o que passará, 
    irmãos das almas, 
    o que é que acontecerá 
    contra a espingarda? 

— Mais campo tem para soltar, 
    irmão das almas, 
    tem mais onde fazer voar 
    as filhas-bala. 

A dificuldade de longa caminhada para enterrar o defunto enseja uma passagem a respeito da qual, em depoimento recente, João Cabral comenta a existência do humor em sua obra:

A crítica nunca se preocupou com o humor negro de minha poesia. Leia Dois Parlamentos, por exemplo. É puro humor negro. Em Morte e Vida Severina, também existe humor negro. Você lembra daquele trecho: "Mais sorte tem o defunto / irmão das almas / pois já não fará na volta / a caminhada"? Pois bem. A origem disso é uma história que me contaram na Espanha. Dizem que, na época de Franco, ele mandava fuzilar seus inimigos num lugar chamado Sória, que é o mais frio do país. Conta-se que, um dia, um condenado virou-se para os soldados que iriam executá-lo e disse: "Puxa, como faz frio neste lugar". Ao que um dos soldados respondeu: "Sorte tem você, que não precisa fazer o caminho de volta. Foi assim que essa frase foi parar no meio de Morte e Vida Severina. Há mais humor negro do que isso?

No final, Severino retirante oferece-se para ajudar a levar o morto, por estar fazendo a mesma trajetória que o grupo, liberando um dos irmão das almas para retornar a sua terra.


PARTE 3: O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR POR SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO.

Neste monólogo, que retorna aos versos heptassílabos, Severino reflete sobre a dificuldade de seguir o rio Capibaribe, que se apresenta intermitente na época de seca, ou seja, interrompe seu curso em alguns lugares. Até os rios, no Nordeste, compartilham da pobreza geral, na falta do elemento essencial para a existência de um rio: água.

Não desejo emaranhar 
o fio de minha linha 
nem que se enrede no pêlo 
hirsuto desta caatinga. 
Pensei que seguindo o rio 
eu jamais me perderia: 
ele é o caminho mais certo, 
de todos o melhor guia. 
Mas como segui-lo agora 
que interrompeu a descida? 
Vejo que o Capibaribe, 
como os rios lá de cima, 
é tão pobre que nem sempre 
pode cumprir sua sina 
e no verão também corta, 

Confuso quanto ao caminho a seguir, o retirante escuta à distância uma cantoria, e se dirige na direção do som.

PARTE 4: NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA, VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES 


As "excelências" - cantigas de velório em uníssono, sem acompanhamento instrumental - são dirigidas a um defunto que também chama Severino. A diferença dessas excelências severinas em relação às tradicionais cantigas é que estas, ao invés de louvarem o defunto, enfatizam sua miséria, sua carência, seu não-ser. Os catadores ensinam ao morto como ele deve proceder em relação aos demônios que abordarão em sua viagem macabra. Ao perguntarem o que o morto leva, ele deve responder que só carrega coisas de não, que irão atestar sua miséria.

— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...

— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.

— Finado Severino, etc...

— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.

— Finado Severino, etc...

— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves. 


PARTE 5: CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.

Cansado de conviver com miséria e morte, quando procurava vida, Severino reflete sobre a possibilidade de parar por ali e cortar seu caminho como fez o rio Capibaribe. Talvez o rio, quando readquirir seu caudal, possa conduzi-lo em direção ao mar. No primeiro monólogo, o retirante descreve a morte severina, a que ataca em qualquer idade / e até gente não nascida. Aqui, ele descreve a vida severina, aquela vida que é menos / vivida que defendida:

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva; 
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida Severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais Severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?

Enquanto isso não acontece, ele deve procurar trabalho, e aproxima-se de uma mulher numa janela para indagar sobre uma possível ocupação.


PARTE 6: DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ  
Conversando com a mulher na janela, Severino descobre que a ciência de lavrar a terra ou de lidar com engenho não tem nenhuma serventia naquele local. As profissões que mais sucesso fazem ali são aquelas ligadas à morte: médicos, farmacêuticos, coveiros e, como ela própria, rezadeiras profissionais, que vivem de confortar as famílias dos mortos, para o que são muito bem pagas, e na própria hora da morte. O convívio com a morte é tão intenso e a possibilidade de vida é tão escassa que profissões normalmente diferentes, como médico e coveiro, se igualam na semelhança de função.

Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear 


PARTE 7: O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM. 

Da pate anterior para esta, há um corte, deixando subentendido que o encontro com a morte mais uma vez afastou Severino do sertão, levando-o à zona da Mata, onde se passa a presente cena.

O retirante deslumbra-se com o contraste das terras a que chegou com as que deixou, e imagina que deve ser fácil e não muito cansativo trabalhar nessa terra doce, feminina, que possui água vitalícia. Pensa, então, na possibilidade de ali permanecer: 

Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.

PARTE 8: ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO 

A morte insiste em permanecer ao lado de Severino. Nesta cena, ele presencia novamente o enterro, de um lavrador também. Os amigos do defunto falam da vida dele, de sua morte, de seu enterro e da sua última morada. A cova será para ele a terra que ele não teve, o trabalho próprio, ele que sempre trabalho para outrem, a roupa que veste seu corpo, o lençol que o conforta.

— Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra
a tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato. 
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida. 


PARTE 9: O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE  

Severino explica ao espectador o porquê de sua retirada para o Recife, e esclarece que seu grande objetivo é viver um pouco mais do que o sertão agreste lhe permite. O poeta João Cabral diz que um dos motivos que o levaram a escrever "Morte e vida severina" foi saber que a expectativa de vida dos pobres de recife era de vinte e oito anos(28) anos, um ano a menos do que a expectativa de vida da Índia. Acompanhando a trajetória do rio Capibaribe, Severino apressa-se para chegar ao termo da viagem:

Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia;
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

Observe-se que tudo converge para a ideia de morte: o rio, o retirante, a viagem, que não se finda, mas se fina, ou seja, não termina.


PARTE 10: CHEGANDO AO RECIFE O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS 

Os coveiros conversam sobre sua própria profissão, considerando os prós e contras de trabalhar neste ou naquele lugar. Em seu diálogo, referem-se aos retirantes miseráveis que vêm ao Recife iludidos com uma vida digna, mas o que fazem nada mais é do que seguir seu próprio fim, a migração é para eles a viagem da morte:

— E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando,
cemitério esperando.
— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro 


PARTE 11: O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE 

A chegada ao Recife não parece apresentar nada de positivo; pior ainda: o retirante reconhece que fez a viagem da morte. Ele chega a pensar em apressar a morte, jogando-se no rio.

E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de anhinga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).


PARTE 12: APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO 

Nesta cena, Severino dialoga com José, o mestre carpina. O retirante faz perguntas sobre o Capibaribe com intuito de certificar-se de que o rio é propício para abrigar seu corpo como sepultura. O assunto gira em torno da miséria e da fome, e o retirante já se encontra amargurado pelas decepções, crendo, afinal, que a morte, contra a qual sempre lutara, parece ser a solução:

— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?


PARTE 13: UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

presépio nordestino


Neste momento, o sentido trágico da peça, que parece atingir o clímax com a intenção de Severino, vítima de um destino cego e brutal, de se matar, é substituído pelo senso da vida, que modifica o clima da peça, encenando um auto dentro do auto, em que o nascituro é a alegoria de Jesus Cristo, seu pai é seu José carpina (alusão a São José que era carpinteiro), os vizinhos são anjos que louvam e adoram o Senhor, e também os reis magos com seus presentes, e o presépio é o mocambo, cenário do nascimento.

O saltar fora da vida contrasta com o anúncio do nascimento do filho do mestre carpina, que saltou para dentro da vida. O anúncio é feito por uma mulher, que substitui o anjo da anunciação:

— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabeis que ele é nascido.


PARTE 14: APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC 

Os visitantes cantam louvores ao recém-nascido, que recebe homenagem do céu e da terra. Numa determinada passagem, revela-se a ironia do poeta:

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.

— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar. 



O trecho é certamente uma referência irônica à obra Sobrado e mocambos, do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que apresentou as miseráveis habitações como lugares acolhedores.


PARTE 15: COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO 

Cada pessoa que chega trazendo algum presente inicia sua fala com o verso minha pobreza tal é... Ao invés de ouro, incenso e mirra, o pequeno ganha caranguejo, leite, jornal para servir de cobertor, água de bica, um canário, bolacha, um boneco de barro, abacaxi, cana, tamarindo, jaca, mangaba, caju, peixe, carne de boi, sirimangas e goiamuns.


PARTE 16: FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS 

Uma cigana prediz o futuro da criança, que é por demais óbvio: convívio com os siris, galinhas, porcos e cães, identificação com a lama e sobrevivência do mangue. A segunda cigana prediz algo um pouco melhor: o futuro homem será operário, que se revestirá de graxa preta e residirá num mocambo ligeiramente menos miserável do que a moradia em que nasceu, ao invés de viver na lama negra:

Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.


PARTE 17: FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC 

As pessoas que vieram visitar o recém-nascido falam de sua formosura(irônica): magro, pálido, franzino, fraco, inseguro e prematuro. Mas apesar de tudo, é uma alma nova, a esperança de renovação, de força que possa vencer os reveses dos nordestinos depauperados.

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.

— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque o novo
todo o velho contagia.

— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.

— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.

— Com oásis, o deserto,  
com ventos, a calmaria.

Esse auto dentro do auto encena o nascimento de um menino com as características de Jesus Cristo, normalmente presentes nos autos de natal tradicionais. Entretanto, a ideologia do auto folclórico está relacionada à redenção, à salvação dos homens. Aqui, a ideologia cultural não se sobrepõe ao realismo das condições: o menino que chega não nasce para o mundo, mas apesar do mundo.

PARTE 18: O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA 

Seu José carpinteiro (alusão ao pai de Jesus Cristo) volta-se para o Severino retirante e retoma, para tentar responder, a pergunta que ele havia feito há seis cenas atrás, sobre se a morte provocada não seria a melhor saída para uma vida tão miserável. As últimas cinco cenas, com sua celebração da vida, já constituem em si a resposta a quem se cercava de morte, e o mestre José, sem se deixar vencer pelo pessimismo, arremata:

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina. 



CONTEXTO: A GERAÇÃO DE 45

João Cabral de Melo Neto fez parte da geração de 45, a terceira fase modernista. Nessa geração, principalmente na poesia, é difícil encaixar os autores dentro de correntes literárias. Em um amplo espectro, é possível dizer que a poesia deixou de ser tão intimista passando para um maior formalismo.

A poesia de João Cabral é exemplar nesse aspecto. Engenheiro de formação, o poeta encaixa palavras como um construtor assenta tijolos. A sintaxe seca e os versos curtos são emblemáticos nos poemas de João Cabral.

Se na poesia os temas são variados, na prosa parecem coexistir duas vertentes: uma intimista voltada para o fluxo de consciência, tendo Clarice Lispector como maior representante; e outra que aprofunda as questões da prosa regionalista dos anos 30, tendo Guimarães Rosa como seu maior expoente. 

O fim da ditadura de Getúlio Vargas promoveu uma abertura social. A geração de 45 é também engajada nos temas sociais e com grande envolvimento na política.

os discursos do texto

Como se trata de um auto, ou seja, uma peça teatral com temática religiosa, não temos narrador, sabemos da história pelas falas das personagens.

Preste bastante atenção para perceber quando se trata de um monólogo, só o Severino falando, ou quando é diálogo, o Severino falando com alguém.

ESPAÇO E TEMÁTICO

O espaço e o tema estão intimamente ligados nesse poema. A obra aborda a viagem de um retirante do interior do Pernambuco até o Recife, onde ele se depara constantemente com a morte. O fio condutor do percurso é o rio Capiberibe, que deve ser o percurso certo do interior ao litoral.

Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.

Ao longo da jornada Severino encontra diversas vezes com a morte. Morte por fome, por emboscada, ou por velhice antes do trinta. O sertão é o espaço e a morte é o tema, os dois andam juntos ao longo do rio. Até o próprio rio também morre.


Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina

O percurso do rio pode ser comparado ao percurso da vida no sertão, que de tão frágil muitas vezes se interrompe. Severino se depara com a morte muitas vezes. Da primeira vez o defunto é carregado numa rede por outros homens. O falecido morreu de morte matada, em uma emboscada por alguém que queria ficar com suas terras. 

Depois, Severino se depara com um defunto sendo velado em uma pequena residência. Seguindo viagem, ao tentar conseguir trabalho em uma pequena vila, a morte aparece novamente, mas como única fonte de renda para quem quer viver lá. 

Mais perto do litoral, Severino se espanta com a terra mais macia e cheia de cana, e acha que lá é um bom lugar para trabalhar. Porém, assiste ao funeral de um lavrador.


— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,

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