terça-feira, 29 de maio de 2018

Quincas Borba, de Machado de Assis





CONTEXTO: REALISMO NO BRASIL





No Brasil, esse contexto se inicia em 1881, com Machado de Assis, que publica Memórias póstumas de Brás Cubas (primeiro romance realista do Brasil).


Durante o período de passagem do Romantismo para o Realismo , o Brasil sofreu inúmeras mudanças na história econômica, política e social.


O Realismo encontrou no Brasil uma realidade propícia para a ascensão da literatura, já que escritores como Castro Alves e José de Alencar haviam preparado o terreno.


O Realismo apresenta características que refletem o momento em que surge. É fiel ao representar o mundo exterior, analisa as condições políticas, econômicas e sociais que influenciam os comportamentos individuais e determinam a organização social.

O autor e a obra

Machado de Assis (1839-1908) foi romancista, con- tista, poeta e teatrólogo brasileiro, além  de ter  sido o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, da qual foi um dos fundadores. Suas obras são marcadas pela mudança de opinião  por  parte do narrador ao longo da história, as mulheres dis- simuladas, a profundidade psicológica e a crítica implícita à natureza humana (sempre dando prio- ridade ao interesse individual).


Analisando-se a obra de Machado de Assis, a crítica divide-a em duas fases bem  distintas cujo marco é o romance Memórias Póstumas de Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881. Até esta data,  a obra machadiana é  predominantemente romântica, e nela sobressai poesia, conto e romances como: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Pertencem à primeira fase todas essas obras.

A partir de 1881, com a publicação de Memórias, inicia uma nova fase, baseada na análise de caracteres, numa verdadeira dissecação da alma humana. É a segunda fase – marcadamente realista. Além de contos, poesia, teatro, crítica, integram essa fase os romances  seguintes:  Memórias  Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), seu último romance. Toda essa obra é marcadamente realista, embora reconheçamos que um escritor da categoria de Machado de Assis não pode ficar preso às delimitações de um estilo de época.

O principal elemento da estrutura da narrativa de Machado de Assis é o narrador. Em Quintas Borba, também é um personagem dúplice, narrando em primeira ou terceira pessoa, ele está fora da narrativa, mas às vezes, assume o “eu narrado. Ex.: “Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as...”. É onisciente, e interfere na história, fazendo comentários e dirigindo-se ao leitor. Sua participação é, portanto, interventiva.

Machado de Assis foi um antecipador da chamada estética de receptação ao incluir em suas narrativas, o diálogo entre o narrador e o leitor. Este é, também, personagem, um leitor virtual,  explicita- do ou não na narrativa.

Enfim, são diferentes as formas como Machado de Assis estabelece o diálogo entre narrador (o personagem que conta a história) e o leitor (personagem para quem se narram os  fatos) antecipando, em quase cem anos, a importância desses elementos na narrativa contemporânea e a participação do leitor implícito, intratextual, para a elaboração do sentido do texto.


É considerado o mais objetivo dos romances de Machado de Assis. Publicado em 1891, ou seja, dez anos depois da mudança radical trazida por Memórias Póstumas de Brás Cubas, o romance Quincas Borba pode ser visto como irmão da obra que inaugurou o Realismo Brasileiro. Não tem as inovações deste, mas ainda se percebe, ainda que de forma menos intensa, o mesmo dom ao trabalhar com a digressão, ironia e metalinguagem. É um desdobramento da problemática e da narrativa de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Outro ponto de contato é o fato de Quincas Borba ser personagem que já fazia parte de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Amigo de infância do autor defunto, tinha decaído de abastado para mendigo, depois, recebendo uma herança, tornara- se rico e criador de uma filosofia, o Humanitismo.

Essa teoria é justamente o principal mote comum entre as duas obras. Há quem diga que se trata de uma paródia de Machado de Assis às inúmeras filosofias que surgiram no final do século XIX, em que todos pareciam ter uma explicação sobre tudo. No entanto, existe também a possibilidade  de  se ver aqui uma metaforização do próprio ideário a que o grande autor realista se apegava.


O ESTILO DE ÉPOCA MANIFESTADO NA OBRA



Descrição fidedigna das personagens

Assim como é característico desse estilo de época, o escritor realista encara a realidade direta e objetivamente. Ao realista interessa o que é e não o que deve ser. Podemos afirmar, dando-se os devidos descontos, que as personagens realistas são autênticas criaturas de carne e osso que têm as virtudes e os defeitos do ser humano. O realista não idealiza a realidade, como faziam os românticos, mas pinta-a tal como ela se apresenta ante seus olhos: é um expectador que contempla de fora a realidade que  o cerca. Assim são as personagens de Machado de Assis: Capitu, Sofia, Virgília, Quincas Borba, Brás Cubas, Rubião e tantas outras que povoam seus romances de  contradições, misérias, desgraças, alegrias, virtudes, defeitos – enfim, de vida.

Análise introspectiva das personagens

Machado de Assis é, incontestavelmente, o mestre da análise introspectiva, no que poderíamos chamar de dissecação da alma humana. Uma das principais características das suas obras de segunda fase, como Quincas Borba, é a análise de caracteres. Assim, Machado de Assis procura analisar o interior das personagens e das situações dramáticas, psicológicas, sociais, cômicas... Deste modo, a análise sobressai sobre o enredo da obra, assim como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. A grande preocupação é a narração dos fatos e com posterior análise dos mesmos.

Objetividade e Impessoalidade

De um modo geral, ao subjetivismo romântico opõe-se o objetivismo realista, pois aqui o escritor procura evitar sempre as emoções subjetivas, conduzindo a obra de maneira direta e objetiva. Assim, raramente o escritor realista interfere nos dramas vividos por suas personagens. São meros expectadores que, frios e impessoais, analisam esses dramas. É claro que, muitas vezes, alguma coisa fica do artista, pois a criatura sempre revela algum traço do seu criador. Observa-se uma visão niilista e pessimista da vida onde só vê “insanidade e imperfeições imanentes.” Embora não se aplique, cabalmente, a objetividade na ficção de Machado de Assis, é possível entrever este espírito de precisão e de objetividade, de frieza e impessoalidade em Quincas Borba.

Em Machado de Assis, o enredo não é o mais importante. A narrativa e o enredo estão subordinados aos estados de alma dos personagens. Os acontecimentos referidos não obedecem a uma ordem de causa e efeito. Nota-se que não há uma preocupação em narrar  uma estória,  o  importante é o tipo de reflexão, de pensamento que sugere o autor. Machado de Assis preocupa-se mais com o caráter dos personagens do que com a trama da narrativa ou a descrição de costumes.

Às vezes, há antecipação, posposição ou intercorrência de acontecimentos, pela necessidade de desenvolvimento da narrativa, que ora se prende a um personagem, ora se liga a outro.

Narrativa lenta e pormenorizada

Parece não haver melhor classificação do estilo de Machado de Assis do que traçado por ele mesmo nas memórias Póstumas de Brás Cubas, ao afirmar pela boca do defunto autor: "Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..." Assim, a narrativa realista é lenta e pormenorizada, cheia de paradas e vaivéns, ao contrário do romântico que  se  concentra mais na ação, na intriga que desenvolve.

No caso de Quincas Borba, se comparado às Memórias Póstumas de Brás Cubas, podemos observar que os pormenores e reflexões  que  povoam este romance (as Memórias) são bem mais que naquele (Quincas Borba). Parece que teve em mira de escrever um romance para ser lido e não ser analisado. De qualquer modo, Quincas Borba não foge a essa norma do romance realista. Se não possui as interrupções e reflexões que caracterizam as Memórias, pelo menos não se pode dizer que Machado aqui ficou preso à história contada que “é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que, afinal, não se consuma.”

Assim, as reflexões, as paradas são constantes em Quincas Borba, como se podem ver no decorrer do romance.

Predominância do tempo presente

O Realismo retrata a vida contemporânea. Enquanto o romântico se volta ao passado ou se projeta no futuro, o realista se fixa no presente, porque o que lhe interessa é a vida que o rodeia. Deste modo, o escritor realista encara o presente, muitas vezes descambando para os aspectos degradantes e deprimentes da sociedade, como é o caso do romance naturalista de Aluísio Azevedo, O Cortiço.

Sem se prender às delimitações de tempo e espaço, pode-se afirmar que Quincas Borba é obra perene e imune à ação corrosiva do tempo: "é uma grande sátira da vida, de seus ingredientes e de suas verdades.

Humor - ironia: o humanitismo



Pode-se notar que, em geral, o  humorismo corta,  na obra de Machado de Assis, uma digressão que parecia querer estender-se e, justamente quando o autor dá a impressão de querer desviar-se da profundidade da ideia, é que nos leva a  considerá-la. O humor, como fenômeno literário, teve início com as Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Machado de Assis usa o humor, também, como arma para lutar contra o pessimismo. Humor em que a gente ri da gente mesmo. Rir para não chorar. Riso com uma sobrecarga de amargura.

Surge, então, o Humanitismo. Que é esta filosofia?

É uma visão irônica das filosofias que pregam ser a humanidade feita de uma só essência. A teoria dos Humanitas nasce em oposição ao Humanismo. Nesta, o homem é o centro de tudo e há uma total valorização dele. No Humanitismo aparece o pensamento pessimista e absurdo. O homem não aparece como um ser maravilhoso e perfeito, mas cheio de falsidades, onde um cão pode ser mais amigo e fiel do que ele.

O homem é menos valorizado, no Humanitismo, não significa nada; é falso, instável e fraco. Pode-mos notar isto nos personagens machadianos. Tudo é  igual. Na luta pela sobrevivência quem  vence é o mais forte. “Ao vencedor as batatas.”

Sim. “Ao vencedor as batatas”. Depois da morte de Quincas Borba, Rubião sente-se dono  das batatas. É um vencedor. As batatas, para ele, representavam riqueza, posição social. Não sabia ele que, na realidade, representavam, simplesmente, meras batatas. Não tinham valor  algum. Seriam, apenas,  o veículo de sua destruição. E ele que até então não entendera a exposição do filósofo, passa a compreender a fórmula.

Niilismo-pessimismo


O romance é uma visão fria e impassível da vida. Lúcido como sempre, pessimista e niilista, Machado de Assis vai dissecando com sua câmera lenta toda a humanidade, corroída e carcomida pelo câncer da hipocrisia e da falsidade, espalhando por toda a terra e suas criaturas a sua "bílis" de epiléptico e de mestiço da sociedade.  Tudo  perpassado de uma visão irônica, de um humor niilista e pessimista que sempre marca a literatura machadiana. Em suma, é uma visão da vida que só a lucidez de um  espírito  louco, como Quincas Borba, pode dar: a humanidade desenfreadamente louca a buscar prazeres fáceis e fugazes, numa vida que só é opróbrio e alienação, embora com toda a fisionomia de verdade, porque aceita como convenção o imperativo moral da sociedade. No fim, a vida não passa de uma batatada: come-a a tribo vencedora - "ao vencedor as batatas". Ao cabo de tudo, os "he róis" da vida pegam nada, levantam nada e cingem nada, como aconteceu com o Rubião. Enfim, é assim a vida humana; achamos que temos na cabeça uma coroa de ouro, quando, na verdade, tudo não passa de um chapéu velho ou coisa semelhante.

O pessimismo está presente em toda a obra. Isto é devido, em grande parte, ao agravamento de sua doença, a epilepsia, mal que, latente na infância, acentua-se por volta dos 40 anos, determinando então seu radical cepticismo.

Em Quincas Borba, Machado  de Assis  vai retratar a sociedade pequeno-burguesa do Segundo Império, onde o importante era a moda, o vestuário luxuoso, os adornos, a habitação, os títulos honoríficos. O valor das pessoas estavam, apenas, na sua exterioridade.

Mais uma característica poderá ser colocada ao lado destas – a sátira.

O que é uma sátira? É uma caricaturização de tipos, situações políticas, situações amorosas, etc.

Em Quincas Borba vamos encontrar vários exemplos. Dr. Camacho é o primeiro desta galeria,  o qual representa bem a caricatura do politiqueiro demagogo.

A sua linguagem é pomposa e enriquecida com constante uso do vocabulário latino.

Carlos Maria – é a segunda caricatura da nossa galeria. É o conquistador, galanteador, o próprio “don Juan”.

Há ainda caricaturas de parasitas (Freitas), amizades falsas (Palha), enfim, de todos os tipos de uma sociedade.

Outros aspectos do estilo de Machado de Assis, ponderáveis em Quincas Borba são: o  diálogo com o leitor; o gosto pelas citações, referências bíblicas, referências a capítulos anteriores e uma predileção muito grande por personagens bem estabelecidas, financeiramente, que agem com muita freqüência, de forma maquinal e inconsciente.

Hipocrisia-ambição

Dentro dessa perspectiva niilista e pessimista é que Machado situa a sociedade que retrata - sociedade hipócrita e falsa, interesseira e fútil, incapaz de olhar mais a fundo no íntimo dos problemas.

Em volta do Rubião formou-se a constelação de parasitas e ambiciosos. Quem se salva entre eles? Talvez apenas o cão, o único que era capaz de receber um pontapé e voltar correndo para o seu dono. Acaso alguém se interessou, realmente, pelo Rubião, quando este perdeu toda a sua fortuna? Entretanto, ele tivera "amigos". A casa vivia cheia deles.

Indiferença cósmica

Acaba-se o mundo, chore quem quiser, ria, gargalhe a humanidade, que os astros do  céu  pouco estão ligando para os risos e lágrimas humanas. Ficarão sempre firmes e inabaláveis, longe das intempéries do planeta dos homens. Assistirão,, com a mesma indiferença e impassibilidade de sempre, "às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia" (cap. XLVI).

Este é outro aspecto marcante do romance: a indiferença cósmica com que Machado de Assis vai fechar o seu livro. A passagem se refere à morte do Rubião e do cão Quincas Borba:

Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro,- questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! E a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.


Estrutura do romance

Ação

O leitor que vir a obra apenas por seu recheio romanesco, quer dizer, o enredo ou o entrecho, sairá desiludido da leitura, pois a história contada é trivial e comum, reduzindo-se a um adultério sonhado, desejado, preparado, que afinal não se consuma. Ao contrário de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado procurou escrever uma história que pudesse agradar por si própria e não por aspectos marginais. Tanto é assim que  diligenciou por limpar o texto daquele excesso de reflexões morais e de interrupções no desenrolar das cenas, comuns no romance anterior. Parece que teve em mira escrever um romance para ser lido e não para ser analisado, daí os poucos ou raros desvios do núcleo da obra, toda ela girando em torno duma paixão que não se consuma em crime.

A ação se passa no Rio de Janeiro, havendo um recuo no tempo até Barbacena, onde se passam fatos importantes que dão origem ao romance.

Na Corte é retratada a vida de um grupo de burgueses. Todas as exigências de uma falsa sociedade são descritas. Machado de Assis disseca a alma humana numa visão assistemática  da vida. Coloca a nu a ambição, a avareza, as hipocrisias da sociedade.

A narrativa se fecha em Barbacena, onde Rubião aparece louco. É o círculo da vida. O fim de Rubião é o mesmo de Quincas Borba e tudo termina no mesmo lugar onde inicia – Barbacena.

A ação, portanto, se concentra em Rubião – Sofia. Mas há núcleos secundários, de real importância, como é o próprio da estrutura do romance; Sofia- Palha, Quincas Borba (cão e filósofo), Teófilo- Fernanda, Carlos Maria-Maria Benedita, Dr. Ca- macho, Major Siqueira-D. Tonica, Freitas, etc.

Tempo

É outro aspeto ponderável no estudo de um romance a determinação do tempo. Como é fácil observar, a ação decorre na Segunda metade do século XIX, como se pode aprender das diversas referências a personalidades políticas e fatos históricos da época.

Não se pode dizer que o desenvolvimento do tempo é rigorosamente cronológico, havendo, às vezes, recuos que podem lembrar o tempo psicológico, como é o caso da história dos enforcados (cap. XLVII) a que Rubião “assiste” muito tempo depois.

Portanto, os acontecimentos ocorrem na época do segundo império e não evoluem numa cronologia exata. À medida que há necessidade de esclarecimento, volta-se atrás e quando nada acontece de interessante há um salto sobre o tempo:

Lugar

Como já foi dito, a ação inicia e termina em Barba- cena, sendo que todos os fatos intermediários ocorrem na Corte.

É importante notarmos que, apesar de ser especificado o local, este romance poderá ser enquadrado em qualquer parte do mundo. A temática é universal. Há muitos “Palhas e Sofias” por este mundo... Há muitas “Barbacenas” – princípio e fim  de tudo, e muitas “Cortes” que, com seus encantos, envolvem e destroem o ser humano, como Rubião e o Quincas Borba, cão e filósofo, esmagados pela loucura da humanidade.

Personagens

Na obra de Machado de Assis, o mais importante é o caráter dos personagens. Eles não estão presos à trama da narrativa. Movimentam-se num ambiente mais de reflexões do que de ação.

É interessante você notar que os personagens são levados por uma força maior que eles. Ficam sempre passivos, e esta força determina-lhes as ações. Sempre é usada a expressão “deixou-se estar”, “deixou-se ficar”.

As personagens de um romance são, evidentemente, as pessoas que vivem situações e dramas dentro da narrativa. Normalmente, só “gente” pode ser personagem de romance. Às vezes, “animais” também participam de romances e contos,  como tem acontecido com freqüência na literatura moderna. É o caso de Quincas Borba, o cão, elevado à categoria de personagem do romance machadiano, como projeção e prolongamento, por metempsicose, do filósofo do mesmo nome.

Quincas Borba
Em síntese, Quincas Borba se destaca pelos seguintes atributos: filósofo doido, esquisito, “com freqüente alteração de humor”, “ímpetos sem motivo”, “ternura sem proporção”, extravagante, bom, alegre, lutava contra o pessimismo e desejava a sua continuidade através dos tempos como comprova a sua filosofia “borbista”, de natureza “humorística”, o Humanitismo. Depois que morreu, passou, por metempsicose, ao corpo do seu cão, como sugerem as dúvidas de Rubião ao longo da narrativa:

Rubião
De um modo geral, Rubião se caracteriza assim no romance: tem medo da opinião pública, é indeciso, volúvel, ambicioso, megalomaníaco, obsessivo, desequilibrado, tímido, acomodado, ciumento, influenciável, conflituoso, ocioso, ingênuo.

A sua megalomania, que o levará à sandice, tem desenvolvimento sutil e velado ao longo da narrativa. Depois a megalomania vai aumentando claramente, à medida que sua herança decresce: é a loucura que está chegando com Napoleão III e a imperatriz Eugênia. Enfim, à proporção que vai “enlouquecendo”, Rubião vai ficando cada  vez mais “lúcido” – herdeiro da fortuna  e  do espírito do filósofo Quincas Borba, escapando, assim, à chacota e à sátira machadianas, a que são os únicos no livro, além do cão, que conseguem escapar. É que Machado de Assis só sabe ver o mundo através da “loucura e do delírio”.

Sofia
Em linhas gerais, o perfil de Sofia, no romance, se delineia assim: vaidosa, orgulhosa, do- minadora, fria, cautelosa, ambiciosa, sedutora, caráter ambivalente, frívola, sensual e dissimulada.

Lembremos aqui a Capitu de Dom Casmurro com seus “olhos de ressaca” e natureza dissimulada, como fica explicitado ao longo do romance. Mas, por falar em olhos, Machado dá extrema importância aos olhos de Sofia.

Palha 
Ambicioso, egocêntrico, vaidoso, bajula- dor, interesseiro, parasita, desonesto, astuto, torpe. "Rotulado por um nome que já lhe traduz o caráter e a personalidade, também se atira ao dinheiro e à posição social como se estivesse no caminho certo".

Carlos Maria
Vaidoso, altivo, vazio, galanteador: é  a caricatura  do conquistador de frases feitas e lugares-comuns. Um aspecto que lhe é bastante característico é o de divindade, que Machado iro- niza a toda hora. Casou-se para ser "adorado" pela esposa.

Maria Benedita
Tímida, pacata, sem iniciativa, passiva, resignada, influenciável, personalidade fraca. Seu casamento com Carlos Maria que, à pri- meira vista, significou o encontro da felicidade tão longamente sonhada, não passa  de  um  ludíbrio, em virtude do pouco amor que Carlos Maria lhe dedicava.

Dr. Camacho 
É caricatura do politiqueiro demagogo de frase feita e retórica excessiva; astuto e interesseiro.

Major Siqueira 
Mexeriqueiro, inicialmente, e depois despeitado como se revela no cap. CXXX.

D. Tonica
O desespero desta "solteirona quarentona" já começa pelo nome: D. Tonica. Revela-se invejosa, revoltada, infeliz e frustrada.

D. Fernanda 
Casamenteira e um tanto  fidalga. No mais, uma boa senhora e esposa dedicada que sabe consertar a gravata do marido nas horas necessárias... (modelo para as menininhas  de  hoje que nem consertam gravatas nem colarinhos...).

Teófilo
É o marido da super-esposa acima: ambicioso, dinâmico e, às vezes, temperamental e minucioso.

Freitas 
Caricatura do parasita e dos glutões de jantares e de charutos alheios. Deus que o tenha na sua santa glória!


Enredo simplificado

A narrativa se passa em Barbacena. É a história de um professor mineiro de primeiras letras, Rubião, para quem o filósofo Quincas Borba (personagem que já aparecera em Memórias Póstumas de Brás Cubas) deixa todos os seus bens, com  a  condição de que o herdeiro cuide de seu cachorro, também chamado Quincas Borba. Quincas Borba é bajulado por Rubião, que quase se  havia  tornado cunhado. O interesse é a riqueza do filósofo, solteiro, sem parentes. Seus esforços mostram-se, no fim, frutíferos. Já louco, Quincas morre enquanto estava no

Rio de Janeiro (esse momento de Quincas Borba é narrado em Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Deve-se lembrar que o cachorro é um elemento curioso na obra. Pode-se dizer que o título  refere- se a ele, num mecanismo que engana o leitor – o livro não é, na verdade, sobre o homem Quincas Borba. Pode-se, também, ver no animal uma extensão, dentro dos próprios ditames  do  Humanitas, do princípio do antigo dono. Tanto que algumas vezes o Rubião tinha preocupações com suas ações imaginando que o mestre havia sobrevivido na criatura. É uma observação que faz  sentido, tanto no aspecto “espiritualista” como na própria estrutura literária da obra, pois o cão fica como uma suposta consciência do filósofo, a incomodar Rubi- ão.

De posse da fortuna e tendo aprendido de Quincas Borba alguns elementos de sua filosofia, o Humanitismo, Rubião cai na mesma sanha da espécie humana: quer fama, status. Para tanto, Barbacena não o satisfaz e ele se muda para o Rio de Janeiro. Durante a viagem de trem, conhece o casal Sofia- Cristiano Palha. Encanta-se com a beleza da mulher. E, ao ingenuamente confessar sua riqueza repentina, desperta o olhar de rapina do marido, que rapidamente oferece sua casa e sua ajuda durante a estada do mineiro na capital. Desabituado com a vida na cidade grande, cercado de pessoas que vivem de seu dinheiro,  Rubião  apaixona-se por Sofia, mulher de Cristiano Palha, agora seu sócio.

Ao saber da corte de Rubião à sua mulher, Palha divide-se entre dois sentimentos: o ciúme que tem da mulher fá-lo pensar em atitudes radicais,  mas sua dependência econômica de Rubião o leva a não querer ofender o sócio. Os cônjuges sofrem de um mal típico na ficção machadiana: lutam por prestígio social, por cavar um espaço no seu meio. Isso justifica o fato de Rubião gostar de exibir sua esposa, apreciando os decotes atraentes que ela usa nos salões. Sua vaidade é satisfeita ao saber que sua mulher é cobiçada. O mesmo se pode afirmar dela, principalmente pelo esmero que tem com vestuário. Preocupam-se em serem bem vistos pela sociedade. O que não implica que tenham de fato valores – o que importa é a imagem, é o conceito e não  o fato.

Aproveitando-se dos encantos de sua própria es- posa, Cristiano Palha consegue atrair a atenção de Rubião, começando por adquirir dele um empréstimo. Mas planeja ir mais  adiante: quer, por meio de uma sociedade, dinheiro para investir em seus negócios e acabar enriquecendo. Está tão preocupado que quando sua esposa confessa que foi cortejada pelo abastado (foi em uma festa, no jardim  da casa dos Palha, quando Rubião praticamente tenta, digamos, atacar Sofia) foi bruscamente inter- rompido pelo Major Siqueira, personagem pândega (não falava – produzia uma enxurrada de palavras), que flagrou a inconveniente cena. Mais uma vez, as aparências suplantaram o fato. Achou que estava havendo adultério, quando de fato não havia), faz todo o possível para relativizar qualquer arrufo de dignidade de Sofia. Não pode  perder uma escada social tão preciosa. Nota-se, aqui,  a  que ponto chega o desejo por status.

Sofia, astuciosamente, consegue manter intactos, tanto o interesse de Rubião, quanto a fidelidade conjugal. Aconselhada a não ser brusca com uma pessoa tão preciosa, Sofia acaba assumindo uma postura ambígua para Rubião. Não atende a seus desejos, mas também não os nega enfaticamente, o que alimenta nele esperanças, geradoras de certas complicações.

Tonica, filha do Major Siqueira e que atingiu o  posto perigoso de solteirona, vê no mineiro sua última tábua  de salvação. Mas percebe no  homem o interesse por Sofia, o que lhe desperta desejos éticos de denúncia que, no  fundo, são  mera sede de vingança e despeito. Mas não reage, apesar de toda a expectativa criada. No fim, sofre um processo de empobrecimento, ao mesmo tempo em  que ela e seu pai são desprezados pelo casal Palha, em franca ascensão social. Acaba arranjando um noivo – um tanto desqualificado, mas, como dizia uma outra personagem, D. Fernanda, “um  mau marido é melhor do que um sonho” – que termina por morrer dias antes do casamento (parece que o Major Siqueira e Tonica servem para mostrar na narrativa o lado dos perdedores, o que se contrapõe com o Humanitismo defendido por Quincas Borba, de acordo com o qual a opinião, o ponto de vista dos perdedores não conta).

Em outro baile, um jovem de nome Carlos Maria passa a noite dançando com Sofia, o que deixa até no ar a possibilidade do surgimento de um adultério. Mas houve apenas a satisfação de dois egos:  ela, por se sentir idolatrada; ele, por ter em suas mãos a mais bela mulher do salão. E tudo esfria, não surgindo mais nenhum laço forte além da dança. No entanto, duas personagens imaginaram

que o episódio tinha gerado conseqüências mais terríveis. O primeiro foi Rubião, que se sente enciumado. Em sua mente, aceita dividir Sofia com Cristiano, marido. Mas não aceita com outro amante. A outra personagem é Maria Benedita, prima de Sofia, criada no interior, alheia à civilização, mas que desperta o desejo de evoluir graças ao interesse que sente por Carlos Maria. Sente-se, pois, arra- sada ao pensar que a senhora Palha indignamente havia-lhe passado a perna.

Mas, se a menina mergulha na melancolia passiva, Rubião é um pouco mais ativo. Começa a ter delírios paranoicos. Imagina, com base numa história contada (e provavelmente inventada) por um co- cheiro, que Sofia se encontrava com Carlos Maria num bairro distante. E o clímax é quando imagina ter como prova uma carta dela para o suposto amante, missiva que nem sequer abrira. Se tivesse, descobriria que era apenas um comunicado sobre a Comissão de Alagoas.

Tocou-se, pois, num passo importante da narrativa: a Comissão de Alagoas. Em primeiro  lugar, esse episódio vai lembrar a morte da avó de Quincas Borba. Por causa do flagelo que houve na província nordestina, Sofia faz parte de um grupo de caridade composto de senhoras da alta  sociedade da corte. Começa, pois, a fincar seu lugar ao sol, graças à desgraça alheia. É também por meio desse grupo que sai conseguir o casamento de Maria Benedita com Carlos Maria, parente de D. Fernanda, mulher muito conceituada. Torna-se nítido, nesse ponto, uma característica muito comum às narrativas machadianas: os mecanismos de favor. No Brasil da época de Machado de Assis, muitas vezes a ascensão social não era obtida por meio da competência. Entravam em campo tais mecanismos. Quem estava por baixo, geralmente gente da classe média, como profissionais liberais ou comerciantes (o caso do casal Palha), esforça-se para conquistar a simpatia de quem está por cima, ricos proprietários da classe alta (o caso de D. Fernanda).

Eis, pois, o que enxergamos na relação entre a poderosa D. Fernanda e Maria Benedita, que culminou no casamento desta, alavancando-a para a alta esfera social. Vemos isso também na entrada de Sofia na Comissão de Alagoas. É por meio desse grupo que angaria a simpatia das damas abasta- das, principalmente de D. Fernanda, mais uma vez (essa personagem, impositiva, adora exercer seu poder de influência sobre as pessoas), tornando-se uma delas.

O dinheiro adquirido graças à sociedade com Rubião é investido, originando progresso financeiro.  O enriquecimento fica notório na seqüência de mudança de residências: de Santa Teresa vão  para a praia do Flamengo e de lá finalmente instalam-se no Palacete do Botafogo.

Rubião é destinado à exploração, à derrota. É o gastador. É o sugado. Sua riqueza esvai-se em empréstimos a fundo perdido,  em  investimentos no jornal do político Camacho, no grupo de co- mensais que frequentam sua casa, aproveitando-se de jantares, charutos e demais benesses.

O mais incrível é que no momento em que a derrocada do protagonista se mostra mais nítida é  que ele assume delírios de grandeza, provavelmente provocados pela situação incoerente entre não ter o seu amor por Sofia correspondido e não ser clara- mente dispensado por ela (o  que  pode  explicar essa incoerência é a vaidade de Sofia. Sente-se lisonjeada ao saber que alguém a venera, por isso não corta os laços, desde que não se comprometa sua reputação (mais uma vez a vaidade). É o que aconteceu com Carlos Maria. Enquanto ele a corte- java, ela sentia-se bem. Abandonada, pois este se casa com Maria Benedita, sente despeito. Não ia praticar o adultério, mas se incomoda em  muito com a ideia de ser passada para trás). Chega até a desenvolver um ciúme doentio, imaginando em suas mãos não uma prova do adultério de sua amada com Carlos Maria: a carta fechada que esta havia mandado ao jovem e que fora desleixadamente perdida por um empregado em frente à casa de Rubião.

O interessante é que, num momento de mistura entre ciúme e decência (mais uma vez,  a  mistura de elementos dilemáticos orientando as ações humanas), entrega a missiva à Sofia, com a intenção  de passar-lhe uma lição de moral. A mulher chega até a ficar corada, mas imediatamente recompõe o domínio da situação, mostrando-se tranquila. Atitude típica das heroínas machadianas.


Para Rubião, tudo era prova substanciosa do adultério. Mas consistia só em aparência. A carta nada mais era do que um convite a Carlos Maria para contribuir na famosa Comissão de Alagoas. Note como uma ampla realidade foi montada em cima apenas da aparência. Vivemos desgraçadamente

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