terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Clube dos Anjos, de Luís Fernando Veríssimo









A obra O Clube dos Anjos (1998), de Luis Fernando Verissimo, faz parte da série "Plenos Pecados" e aborda o pecado da Gula. A análise a seguir baseia-se na perspectiva literária e nas teorias do imaginário apresentadas nos documentos fornecidos.

A Gula

Segundo o dicionário Gula é:
  1. Vício que consiste na ingestão exagerada de comidas e bebidas;. 
  2. Forte apego a comidas saborosas; 
  3. Fig.  Forte desejo; SOFREGUIDÃO. 

O Picadinho: A Fase da Comensalidade e Fraternidade

No início da obra, o grupo se reúne para comer picadinho.

Significado Simbólico: O picadinho é um prato democrático, simples e caseiro. Ele representa a fase em que o grupo era unido pela amizade e por uma rotina de classe média urbana.

A Figura de Ramos: Enquanto Ramos (o líder original) estava vivo, o foco era a "comunhão". Segundo o texto de Carolina Veloso, o imaginário aqui é o da "comensalidade positiva": comer juntos para reforçar laços de vida. O picadinho era o pretexto para a convivência.


A Morte de Ramos e o Vazio Gastronômico

Com a morte de Ramos, o grupo perde seu "eixo". A narrativa mostra que as reuniões começam a ficar melancólicas e sem propósito. É nesse momento de vulnerabilidade que o grupo está pronto para ser "seduzido" por algo maior e mais perigoso. Eles buscam um substituto para o prazer que a simples amizade já não supria.


A Chegada de Lucídio 

Através do encontro com Lucídio e de seu “oferecimento” para cozinhar que o grupo é novamente reunido. Daniel lembra o personagem Fausto, de Goethe, ao estabelecer um pacto com o próprio Diabo a fim de voltar ao que considera o melhor período de sua vida.

Lucídio não é um dos 117 nomes do Diabo, nem eu o conjurei de qualquer profundeza para nos castigar. Quando falei nele para o grupo pela primeira vez, alguém disse: “Você está inventando!”, mas sou inocente, até onde um autor pode ser inocente.

A omelete perfeita

O ovo é um símbolo que praticamente explica-se por si mesmo. Ele contém o germe, o fruto da vida, que representa o nascimento, o renascimento, a renovação e a criação cíclica.

De um modo simples, podemos dizer que é o símbolo da vida. Os celtas, gregos, egípcios, fenícios, chineses e muitas outras civilizações acreditavam que o mundo havia nascido de um ovo.

Era um tipo interessante, apesar da sua formalidade e daquele maldito sorriso fixo. Eu mal podia esperar a hora de apresentá -lo aos outros e ver a reação deles à história do fugu e da sociedade secreta. Que outras histórias ele não teria para contar? Adoro histórias estranhas.

Quanto mais improváveis, mais eu acredito. E seria bom não precisar enfrentar o primeiro jantar da nova temporada sozinho, e ter aquela novidade para apresentar aos confrades. Talvez fosse mesmo o que estivesse nos faltando. Talvez Lucídio reorganizasse todas as nossas vidas. Um homem que arriscava a sua pelo sabor de um peixe mortal era o que precisávamos para nos arrancar daquela espiral de amargura e recriminações mútuas em que a morte do Ramos nos lançara, e nos devolver o sentido da nossa união. Afinal, éramos gastrônomos, não uma ordem religiosa caída em dúvidas ou uma geração amaldiçoada. Mesmo que a história do fugu fosse inventada, era uma inspiração. E o seu jantar seria ótimo, se se pudesse julgar alguém por uma omelete.

A profanação é o motor central da obra. Verissimo não apenas cita a religião; ele a "subverte", transformando um caminho de salvação num caminho de extermínio através da gula.

A Inversão da Eucaristia

No rito cristão, a frase "Tomai e comei, isto é o meu corpo" simboliza a vida eterna. No Clube do Picadinho, sob a batuta de Lucídio, o rito é invertido:
  • O Prato como Sacrifício: Cada "apóstolo" (membro do clube) recebe o seu prato preferido como uma oferta final. No rito sagrado, o fiel come para viver em Deus; aqui, o membro come para morrer no prazer.
  • O Veneno Gourmet: O requinte da comida (a gourmetização que discutimos anteriormente) funciona como a "hóstia" profana. A morte não é um acidente, é o ingrediente final e necessário para que o prazer seja absoluto.
Do "Nós" (Comunhão) para o "Eu" (Egoísmo)

O rito sagrado é inerentemente coletivo (comunhão). A profanação de Verissimo torna o rito individualista:
  • No início, o picadinho era partilhado (todos comiam o mesmo).
  • Com a chegada de Lucídio, cada um morre isolado com o seu prato específico. A profanação reside em destruir a unidade do grupo para satisfazer o desejo egoísta da gula individual.

A Simbologia do Medo do Tempo

Na história sacra, o rito sagrado, a última ceia, serve para "eufemizar" (suavizar) o medo da morte.
  • A Profanação: No livro, a profanação ocorre porque eles não usam o rito para esquecer a morte, mas para invocá-la.
  • Eles atingem o "Regime Noturno" do imaginário, onde o ato de ingerir (comer) é uma tentativa de possuir o destino. Se não podem vencer o tempo, eles decidem quando o tempo para, através do último jantar.
Lucídio como Sacerdote do Abismo

Se no rito sagrado o sacerdote age em nome da vida, a obra mostra Lucídio como o celebrante de uma missa negra gastronômica:
  • Ele conhece as fraquezas (os pecados) de cada um.
  • Ele prepara o altar (a mesa requintada).
  • Ele administra o "sacramento" que, em vez de limpar o pecado, o leva à sua conclusão máxima: a cessação da existência.




A Trindade Invertida: Cristo e Lúcifer na mesma face

A figura de Lucídio é colocada no centro dessa dualidade. O texto de referência explica que, no imaginário de Verissimo, Lucídio opera uma profanação do sagrado:

  • O "Cristo" Provedor: Lucídio assume o papel de messias ao "salvar" o grupo do tédio e da mediocridade após a morte de Ramos. Ele oferece o "manjar dos deuses", realizando o desejo mais profundo de cada membro.
  • O "Lúcifer" Sedutor: O nome Lucídio remete foneticamente a Lúcifer (aquele que traz a luz/conhecimento, mas também a queda). No artigo, destaca-se que ele não usa a força, mas a sedução dos sentidos. Ele oferece o conhecimento do prazer absoluto, cujo preço é a alma (ou a vida).
  • A Fusão: Diferente da Bíblia, onde o bem e o mal são distintos, na obra eles se fundem. O prazer supremo (divino) é o mesmo instrumento da morte (diabólico).

Os Apóstolos Decaídos: Do Espírito para a Carne

A obra detalha como os 10 amigos do Clube do Picadinho representam essa queda.

A Perda da Fé Social: Originalmente, o grupo era unido pela amizade (comensalidade positiva). Com a morte de Ramos, eles perdem o "sentido espiritual" e tornam-se escravos da Gula.

O Rito da Anticeia: Enquanto os apóstolos de Cristo comem para celebrar a vida eterna, os apóstolos de Lucídio comem para celebrar o instante final. Eles são "decaídos" porque trocam a sobrevivência pelo êxtase sensorial.

O Sacrifício Inútil: No artigo, Carolina Veloso aponta que não há salvação nesse sacrifício. Cada amigo que morre não está salvando a humanidade; está apenas satisfazendo um egoísmo gastronômico levado ao extremo.

A Simbologia da Ceia Profana

  • Regime Diurno (O Herói vs. As Trevas): Na obra há uma tentativa heroica de Daniel (o narrador) de entender ou deter o tempo. Lucídio, porém, vence essa batalha ao transformar a morte em algo "belo" e "gostoso".
  • Regime Noturno (A Intimidade e o Digestivo): A obra mergulha no "regime noturno". O ato de comer é uma tentativa de "engolir" o medo da morte. O grupo tenta se esconder do tempo dentro dos sabores de Lucídio.
  • A Inversão Numérica: O slide de título sintetiza o que o texto acadêmico explora: o número 12 (apóstolos) é completado por Daniel e Lucídio, criando uma "Santa Ceia do Abismo".

Nesta fase da obra, Lucídio assume o papel de "mestre de cerimônias" do abismo. Cada prato não é apenas comida, é uma arma personalizada para o pecado da Gula. Como aponta o texto de referência, aqui o rito da vida (comensalidade) se torna o rito da morte.

Aqui está a sequência de mortes, relacionando o prato ao seu "apóstolo decaído":

Ramos (O Líder) – Pernil de cordeiro com molho de menta
Contexto: Morto por envenenado por Samuel, o próprio Ramos pediu, pois era pessoa vivendo com HIV. A sua morte por enfarte é o que desestabiliza o grupo.


Significado: Ramos era o "centro" místico. Sua ausência abre as portas para a "danação" que Lucídio trará.

O Cardápio: O cordeiro é o símbolo máximo do sacrifício cristão (Agnus Dei). Ao servir cordeiro para matar Ramos, Samuel completa a profanação máxima do rito sagrado, transformando o símbolo da salvação em símbolo da futura extinção de todo o grupo do picadinho..

Abel: Morre após comer o seu Boeuf Bourguignon. Como você notou, Abel faz parte do grupo e sua morte segue o padrão de desejo atendido.


André
: Seu prato fatal é a Paella. No contexto da "Profanação do Rito", a Paella (um prato de celebração coletiva) é usada para o extermínio individual.


João: Morre com o Canard à l'Orange (Pato com Laranja).


Marcos e Saulo: Morrem juntos com a Quiche Lorraine. Aqui há uma união no prato e no destino.


Paulo: Seu prato da danação é a Blanquette de Veau.


Pedro: Sucumbe ao Suflê. A técnica exata de Lucídio impede que o suflê murche, assim como a morte impede que o prazer de Pedro diminua.


Tiago: O único que morre com uma sobremesa, a Marquise de Chocolate. Isso reforça a ideia da Gula em todas as suas formas.


Samuel: O prato é o Picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita. É o prato que dá nome ao clube, e Lucídio o prepara com tamanha perfeição que Samuel "morre no berço" da tradição do grupo.


Daniel: O narrador, cujo prato preferido é o Gigot d'Agneau (Perna de Cordeiro). Como você observou, ele sobrevive até o final da narrativa, mas o livro termina com a sugestão de que Lucídio finalmente fará o seu prato ("- Afinal, eu ainda não fiz o seu gigot d'agneau...").


A Personalização do Mal: Lucídio não impõe um cardápio; ele pergunta o que eles amam. A "danação" reside no fato de que o veneno é colocado exatamente naquilo que traz mais felicidade ao sujeito.

A Ironia do Picadinho: O fato de Samuel morrer comendo o picadinho original (com banana e farofa) mostra que Lucídio não apenas "requintou" o grupo, ele destruiu o grupo por dentro, usando a própria identidade deles.

O Gigot d'Agneau de Daniel: Sendo o cordeiro um símbolo bíblico de sacrifício, o fato de este ser o prato de Daniel (o narrador que "vende" a ideia de Lucídio para outros no futuro) mostra que ele é o apóstolo que restou para espalhar a "palavra" da morte pelo prazer.


A Morte como Escolha Estética


Segundo a leitura da obra, a filosofia que move o grupo na sua fase final é a superação do medo da morte pela eufemização.

O Prazer como Anestesia: esta filosofia revela-se quando os membros, cientes de que os jantares de Lucídio são letais, não fogem. Eles escolhem o "êxtase final".

O Fim Gourmet: A morte deixa de ser um evento trágico ou biológico para se tornar um evento gastronômico. Como diz a análise de Durand, é a tentativa de "dominar" o tempo: se não posso viver para sempre, morrerei no auge do meu prazer.

Daniel e a Continuidade do Ciclo

O final da obra apresenta a filosofia mais perturbadora: a sobrevivência de Daniel não é uma salvação, mas uma apostasia, ou seja, a negação da fé.

O Novo Sacerdote: Daniel, o narrador, termina a obra planeando expandir o "negócio" de Lucídio (organizar cruzeiros e jantares para moribundos).

A Filosofia do Lucro e do Prazer: O fim do livro funde a Gula com o Capitalismo. A filosofia do fim torna-se um produto: vender o "êxtase mortal" para quem não tem mais nada a perder. Daniel assume o papel de agenciador da morte.


A Charada do Nome: Lucídio / Lúcifer

Como o título do seu slide sugere, a solução do mistério literário está estampada no nome do antagonista.

  • O Significado Nominal: "Lucídio" remete diretamente a Lúcifer (o portador da luz, o anjo caído). O texto de referência destaca que Lucídio é o "anjo" que preside o clube, mas um anjo exterminador.

  • A Capa como Espelho: Se a obra faz parte da série "Plenos Pecados" (Gula), o culpado é aquele que providencia o pecado. Lucídio é a personificação da tentação da gula que, na capa do livro, já se apresenta como o mestre de cerimônias do fim.

Lucídio: Personagem ou Projeção?

Podemos, a partir da leitura, levantar uma questão central para este slide: a existência duvidosa de Lucídio.

  • O Duplo): Na Literatura é comum tratarmos de personagens que funcionam como duplo, ou seja um reflexo de outro personagem ou mesmo outra faceta, assim, Lucídio pode ser interpretado como uma projeção das sombras do próprio grupo ou do narrador, Daniel.

  • A "Culpabilidade" Coletiva: Se o culpado está na capa, ele também está no espelho. Lucídio só consegue matar porque os membros do clube desejam comer até morrer. Ele é o braço executor de um desejo suicida que já estava latente no grupo após a morte de Ramos.

 A Função do "Culpado" no Rito Profano

A leitura da obra evoca a ideia de um romance policial, pois o protagonista diz gostar do gênero, mas a obra subverte o género:

  • Não há Crime sem Consentimento: No texto de referência, explica-se que a profanação do rito exige a participação voluntária. Lucídio é o "culpado" técnico, mas os "apóstolos decaídos" são cúmplices ativos.

  • O Messias Inverso: Enquanto Cristo morre para salvar os homens, Lucídio (o culpado na capa) faz os homens morrerem para satisfazerem os seus próprios deuses (o paladar).

A Metáfora do Escritor

Há também uma análise metalinguística possível para este slide:

  • O culpado está na capa porque o autor (Luis Fernando Verissimo) é quem "cozinha" a trama. Assim como Lucídio manipula os ingredientes para levar os personagens ao êxtase e à morte, o autor manipula o leitor através do humor e do horror.


A Geometria dos Doze (A Santa Ceia Invertida)

Como apontado no texto de referência, a aritmética da obra é fundamentada no número doze, espelhando a tradição cristã:

  • 10 membros originais + Daniel + Lucídio = 12.

  • Essa soma não é aleatória; ela configura o cenário para a "Última Ceia" repetida. No entanto, enquanto na aritmética sagrada o 12 representa a plenitude e a fundação da Igreja, na obra de Verissimo, o número serve para marcar a desintegração. A cada jantar, a conta diminui, e o grupo se aproxima do zero.


Lucídio e Samuel como o "Meninos Travessos" (Wanton Boys)

A Dúvida sobre a Justiça Divina (A Citação dos "Wanton Boys")

A frase "Como moscas para meninos travessos, somos nós para os deuses" é o auge da dúvida existencial na peça. Gloucester (e o próprio Lear) passa a duvidar que exista uma ordem moral no universo.

  • Relação com a Obra: Veríssimo utiliza esta citação para reforçar que não há justiça ou lógica nas mortes do clube. O "fim" não é punição, é um capricho. Lucídio age com a mesma indiferença dos deuses de Shakespeare, e o grupo morre sem ter a certeza de quem Lucídio realmente é (um anjo, um demónio ou apenas um cozinheiro).

A Dúvida sobre o Afeto (O Gatilho da Tragédia)

No início da peça, Lear duvida do amor das suas filhas. Ele exige que elas "quantifiquem" o afeto em palavras para dividir o seu reino.

  • Relação com o Clube: Tal como Lear não consegue ver o amor genuíno de Cordélia (porque ela se recusa a entrar no jogo de aparências), os membros do Clube do Picadinho não conseguem ver a letalidade de Lucídio porque estão cegos pelo "amor" ao prazer gastronómico. A dúvida sobre as intenções de Lucídio é sufocada pelo sabor.

A Dúvida Existencial e a Loucura

Lear mergulha na loucura quando as suas certezas sobre o poder e a família colapsam. Ele começa a duvidar da sua própria identidade ("Quem é que me pode dizer quem eu sou?").

  • Relação com a Obra: o narrador Daniel vive uma dúvida constante sobre a natureza de Lucídio. Ele chega a duvidar se Lucídio é uma pessoa real ou uma projeção dos desejos suicidas do grupo. A "loucura" do Clube é aceitar a morte como um banquete.


- Olhe, não leve a mal. Mas o picadinho do Alberi era muito melhor do que este. Picadinho não é o seu forte.

- Tem certeza que não quer mais?

Samuel demorou a responder. Na rua, cataratas e furacões e os ventos estalando suas bochechas.

- Está bem - disse Samuel. - Me traga outra banana frita.

Se Samuel tinha preparado uma última frase, não teve tempo para dizê-la.

Morreu oito minutos depois de comer a banana, contorcendo-se em dores.







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