A obra O Clube dos Anjos (1998), de Luis Fernando Verissimo, faz parte da série "Plenos Pecados" e aborda o pecado da Gula. A análise a seguir baseia-se na perspectiva literária e nas teorias do imaginário apresentadas nos documentos fornecidos.
Segundo o dicionário Gula é:
- Vício que consiste na ingestão exagerada de comidas e bebidas;.
- Forte apego a comidas saborosas;
- Fig. Forte desejo; SOFREGUIDÃO.
O Picadinho: A Fase da Comensalidade e Fraternidade
A Morte de Ramos e o Vazio Gastronômico
A Chegada de Lucídio
A profanação é o motor central da obra. Verissimo não apenas cita a religião; ele a "subverte", transformando um caminho de salvação num caminho de extermínio através da gula.
- O Prato como Sacrifício: Cada "apóstolo" (membro do clube) recebe o seu prato preferido como uma oferta final. No rito sagrado, o fiel come para viver em Deus; aqui, o membro come para morrer no prazer.
- O Veneno Gourmet: O requinte da comida (a gourmetização que discutimos anteriormente) funciona como a "hóstia" profana. A morte não é um acidente, é o ingrediente final e necessário para que o prazer seja absoluto.
- No início, o picadinho era partilhado (todos comiam o mesmo).
- Com a chegada de Lucídio, cada um morre isolado com o seu prato específico. A profanação reside em destruir a unidade do grupo para satisfazer o desejo egoísta da gula individual.
- A Profanação: No livro, a profanação ocorre porque eles não usam o rito para esquecer a morte, mas para invocá-la.
- Eles atingem o "Regime Noturno" do imaginário, onde o ato de ingerir (comer) é uma tentativa de possuir o destino. Se não podem vencer o tempo, eles decidem quando o tempo para, através do último jantar.
- Ele conhece as fraquezas (os pecados) de cada um.
- Ele prepara o altar (a mesa requintada).
- Ele administra o "sacramento" que, em vez de limpar o pecado, o leva à sua conclusão máxima: a cessação da existência.
A Trindade Invertida: Cristo e Lúcifer na mesma face
A figura de Lucídio é colocada no centro dessa dualidade. O texto de referência explica que, no imaginário de Verissimo, Lucídio opera uma profanação do sagrado:
- O "Cristo" Provedor: Lucídio assume o papel de messias ao "salvar" o grupo do tédio e da mediocridade após a morte de Ramos. Ele oferece o "manjar dos deuses", realizando o desejo mais profundo de cada membro.
- O "Lúcifer" Sedutor: O nome Lucídio remete foneticamente a Lúcifer (aquele que traz a luz/conhecimento, mas também a queda). No artigo, destaca-se que ele não usa a força, mas a sedução dos sentidos. Ele oferece o conhecimento do prazer absoluto, cujo preço é a alma (ou a vida).
- A Fusão: Diferente da Bíblia, onde o bem e o mal são distintos, na obra eles se fundem. O prazer supremo (divino) é o mesmo instrumento da morte (diabólico).
Os Apóstolos Decaídos: Do Espírito para a Carne
A obra detalha como os 10 amigos do Clube do Picadinho representam essa queda.
A Perda da Fé Social: Originalmente, o grupo era unido pela amizade (comensalidade positiva). Com a morte de Ramos, eles perdem o "sentido espiritual" e tornam-se escravos da Gula.
O Rito da Anticeia: Enquanto os apóstolos de Cristo comem para celebrar a vida eterna, os apóstolos de Lucídio comem para celebrar o instante final. Eles são "decaídos" porque trocam a sobrevivência pelo êxtase sensorial.
O Sacrifício Inútil: No artigo, Carolina Veloso aponta que não há salvação nesse sacrifício. Cada amigo que morre não está salvando a humanidade; está apenas satisfazendo um egoísmo gastronômico levado ao extremo.
A Simbologia da Ceia Profana
- Regime Diurno (O Herói vs. As Trevas): Na obra há uma tentativa heroica de Daniel (o narrador) de entender ou deter o tempo. Lucídio, porém, vence essa batalha ao transformar a morte em algo "belo" e "gostoso".
- Regime Noturno (A Intimidade e o Digestivo): A obra mergulha no "regime noturno". O ato de comer é uma tentativa de "engolir" o medo da morte. O grupo tenta se esconder do tempo dentro dos sabores de Lucídio.
- A Inversão Numérica: O slide de título sintetiza o que o texto acadêmico explora: o número 12 (apóstolos) é completado por Daniel e Lucídio, criando uma "Santa Ceia do Abismo".
Pedro: Sucumbe ao Suflê. A técnica exata de Lucídio impede que o suflê murche, assim como a morte impede que o prazer de Pedro diminua.
Tiago: O único que morre com uma sobremesa, a Marquise de Chocolate. Isso reforça a ideia da Gula em todas as suas formas.
Samuel: O prato é o Picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita. É o prato que dá nome ao clube, e Lucídio o prepara com tamanha perfeição que Samuel "morre no berço" da tradição do grupo.
A Morte como Escolha Estética
Daniel e a Continuidade do Ciclo
A Charada do Nome: Lucídio / Lúcifer
Como o título do seu slide sugere, a solução do mistério literário está estampada no nome do antagonista.
O Significado Nominal: "Lucídio" remete diretamente a Lúcifer (o portador da luz, o anjo caído). O texto de referência destaca que Lucídio é o "anjo" que preside o clube, mas um anjo exterminador.
A Capa como Espelho: Se a obra faz parte da série "Plenos Pecados" (Gula), o culpado é aquele que providencia o pecado. Lucídio é a personificação da tentação da gula que, na capa do livro, já se apresenta como o mestre de cerimônias do fim.
Lucídio: Personagem ou Projeção?
Podemos, a partir da leitura, levantar uma questão central para este slide: a existência duvidosa de Lucídio.
O Duplo): Na Literatura é comum tratarmos de personagens que funcionam como duplo, ou seja um reflexo de outro personagem ou mesmo outra faceta, assim, Lucídio pode ser interpretado como uma projeção das sombras do próprio grupo ou do narrador, Daniel.
A "Culpabilidade" Coletiva: Se o culpado está na capa, ele também está no espelho. Lucídio só consegue matar porque os membros do clube desejam comer até morrer. Ele é o braço executor de um desejo suicida que já estava latente no grupo após a morte de Ramos.
A Função do "Culpado" no Rito Profano
A leitura da obra evoca a ideia de um romance policial, pois o protagonista diz gostar do gênero, mas a obra subverte o género:
Não há Crime sem Consentimento: No texto de referência, explica-se que a profanação do rito exige a participação voluntária. Lucídio é o "culpado" técnico, mas os "apóstolos decaídos" são cúmplices ativos.
O Messias Inverso: Enquanto Cristo morre para salvar os homens, Lucídio (o culpado na capa) faz os homens morrerem para satisfazerem os seus próprios deuses (o paladar).
A Metáfora do Escritor
Há também uma análise metalinguística possível para este slide:
O culpado está na capa porque o autor (Luis Fernando Verissimo) é quem "cozinha" a trama. Assim como Lucídio manipula os ingredientes para levar os personagens ao êxtase e à morte, o autor manipula o leitor através do humor e do horror.
A Geometria dos Doze (A Santa Ceia Invertida)
Como apontado no texto de referência, a aritmética da obra é fundamentada no número doze, espelhando a tradição cristã:
10 membros originais + Daniel + Lucídio = 12.
Essa soma não é aleatória; ela configura o cenário para a "Última Ceia" repetida. No entanto, enquanto na aritmética sagrada o 12 representa a plenitude e a fundação da Igreja, na obra de Verissimo, o número serve para marcar a desintegração. A cada jantar, a conta diminui, e o grupo se aproxima do zero.
Lucídio e Samuel como o "Meninos Travessos" (Wanton Boys)
A Dúvida sobre a Justiça Divina (A Citação dos "Wanton Boys")
A frase "Como moscas para meninos travessos, somos nós para os deuses" é o auge da dúvida existencial na peça. Gloucester (e o próprio Lear) passa a duvidar que exista uma ordem moral no universo.
Relação com a Obra: Veríssimo utiliza esta citação para reforçar que não há justiça ou lógica nas mortes do clube. O "fim" não é punição, é um capricho. Lucídio age com a mesma indiferença dos deuses de Shakespeare, e o grupo morre sem ter a certeza de quem Lucídio realmente é (um anjo, um demónio ou apenas um cozinheiro).
A Dúvida sobre o Afeto (O Gatilho da Tragédia)
No início da peça, Lear duvida do amor das suas filhas. Ele exige que elas "quantifiquem" o afeto em palavras para dividir o seu reino.
Relação com o Clube: Tal como Lear não consegue ver o amor genuíno de Cordélia (porque ela se recusa a entrar no jogo de aparências), os membros do Clube do Picadinho não conseguem ver a letalidade de Lucídio porque estão cegos pelo "amor" ao prazer gastronómico. A dúvida sobre as intenções de Lucídio é sufocada pelo sabor.
A Dúvida Existencial e a Loucura
Lear mergulha na loucura quando as suas certezas sobre o poder e a família colapsam. Ele começa a duvidar da sua própria identidade ("Quem é que me pode dizer quem eu sou?").
Relação com a Obra: o narrador Daniel vive uma dúvida constante sobre a natureza de Lucídio. Ele chega a duvidar se Lucídio é uma pessoa real ou uma projeção dos desejos suicidas do grupo. A "loucura" do Clube é aceitar a morte como um banquete.



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